Vai morrer a lenda urbana do trem até o aeroporto de Guarulhos. Será?

Com atraso de mais de uma década e ajustes contratuais que vão custar mais algum dinheiro para o contribuinte — e ainda com incertezas sobre a operação —, o People Mover da Gru Airport começará a operar com o desconforto de uma baldeação que poderia ter sido evitada
A mais recente notícia sobre transporte público em São Paulo informa que finalmente entrará em operação neste ano de 2026 um trem que levará passageiros até os terminais do Aeroporto de Guarulhos. Enfim um projeto que pode por fim tornar realidade a lenda urbana do transporte sobre trilhos até o principal aeroporto do Brasil, que tem, diga-se, 40 anos. Há mais de uma década se fala no assunto, criam-se projetos e até se construiu uma linha de subúrbio, a Jade, cujo ponto final seria finalmente conectado às áreas de embarque. Vale lembrar que o trem da Jade para, perversamente, a pouco mais de dois quilômetros do aeroporto.
Quando essa linha da Companhia Paulista de Trens Urbanos (CPTU) começou a funcionar, no ano passado, houve quem especulasse que taxistas cartorialmente credenciados no aeroporto tinham obtido uma vitória que lhes garantiria sobrevida e melhores condições para enfrentar o crescimento do transporte por aplicativos, seu grande inimigo. E, sobre esse ponto, cabe mesmo uma pergunta: por que não se levou a linha Jade diretamente para os terminais, dependendo-se agora de uma obra diferente, com composições especiais e num processo de transferência que vai requerer baldeação entre transportes. Imagine-se o desconforto de descer de um trem com malas, andar pelas plataformas e embarcar em outro para uma viagem de menos de 10 minutos.
Para chegar à resposta é preciso considerar diversas circunstâncias e alguns detalhes contratuais. Mas o que importa mesmo saber é que o monotrilho com veículos impulsionados a ar comprimido será financiado pela Gru Airport, a empresa que obteve o contrato de privatização do aeroporto. O dinheiro gasto nessa obra será abatido do que ela deveria pagar pelas obrigações da privatização e esse pacote foi definido numa renegociação de contrato decorrente das restrições de transporte da época da pandemia da Covid 19. Na essência, então, quem está pagando para a construção dos 2,7 quilômetros do sofisticado People Mover é o contribuinte, que poderia muito bem bancar um investimento eventualmente mais barato e sem baldeação caso o poder público não se tivesse deixado enrolar pela empresa. Quando se tratava apenas de estender a linha Jade, a Gru Airport bloqueou a proposta.
Cada metro construído do People Mover custou 10o mil reais, num projeto cuja conclusão atrasou perto de dois anos e tem capacidade para transportar 2 mil pessoas por hora. Foi feito numa área plana e sem obstáculos. A linha Jade, cruzando ruas, estradas e bairros, foi planejada para transportar 5 mil pessoas por hora, atrasou dez anos e teve custo aproximado de 180 mil reais por metro, conforme a previsão inicial. Na prática, o saldo para o contribuinte é um abatimento no preço do espaço privatizado combinado com uma desconfortável baldeação e a incerteza de que o sistema vai operar conforme o esperado.