As iniciativas de Trump em relação ao Irã miram o petróleo e a China

As iniciativas de Trump em relação ao Irã miram o petróleo e a China

Do mesmo modo que na Venezuela, o presidente americano quer abrir o mercado iraniano para as companhias petrolíferas de seu país e criar problemas para os chineses

Numa estratégia apenas um pouco diferente da que adotou contra Nicolás Maduro, a encenação de Donald Trump de apoio aos manifestantes iranianos que se revoltam contra o regime dos aiatolás está baseada em interesse econômicos. O Irã é o terceiro maior produtor de óleo entre os associados da Opep e está entre os seis líderes do ranking mundial. Ao longo das últimas décadas, teve quedas de produção motivadas por sansões internacionais, mas recupera-se nos anos mais recentes exportando mais de 80% do petróleo extraído de seus campos para a China.

Se o regime mudar, como querem legitimamente os manifestantes e como deseja ardentemente o presidente dos Estados Unidos, abre-se uma porta para que Trump atinja dois objetivos de importância equivalente: contribuir para que as empresas americanas encontrem mais uma possibilidade para atuar nos negócios com petróleo e abalar o fornecimento para os chineses.

Da campanha à posse como presidente, Trump sustentou que não envolveria os Estados Unidos em novas guerras, mas se referia aos combates militares, com envio de soldados americanos cujas mortes em campos de batalhas no exterior transtornam a população do país e geram prejuízo para a imagem do ocupante da Casa Branca. Nunca se comprometeu a evitar conflitos comerciais, que supõe ter efeito oposto, e muito menos a não estimular rebeliões onde quer que o apoio americano produza efeitos econômicos favoráveis no curto prazo.

Seu propósito maior é atingir um nível de popularidade no eleitorado médio que contribua para sustentar sua pretensão de mudar a legislação americana e candidatar-se a um novo mandato. Por isso atira contra a transição energética, despreza as questões ambientais e procura ajudar os mastodontes da velha economia, baseada em petróleo. Paralelamente, age para causar danos à economia chinesa.

Sabe-se que agentes da CIA atuaram fortemente na Venezuela para ampliar a desestabilização de Nicolás Maduro, um ditador ignóbil que sufocava a população de seu país e cuja remoção — no caso, um sequestro — não seria vista traumaticamente pelos venezuelanos. O Irã está em condições parecidas, com o povo submetido a um regime perverso e medieval. Não há razão nenhuma para acreditar que algo diferente está acontecendo dentro das fronteiras iranianas. No meio do ano passado, os aiatolás anunciaram ter prendido mais de duas dezenas de agentes do Mossad que atuavam no país, durante os ataques que Israel desferiu sob a alegação de impedir a proliferação de armas atômicas.

Ninguém ignora que CIA e Mossad fazem operações conjuntas no Oriente Médio e há um longo histórico de agentes do serviço secreto americano flagrados ao atuar na região. A guerra de 2025 contribuiu para enfraquecer economicamente o regime iraniano, expondo a população a um flagelo de sobrevivência e contribuindo para aumentar a aversão à teocracia. Na luta mais do que justificável por recuperar liberdades e derrubar a república islâmica radical, a população agora é também uma peça que pode ser movida à distância por Trump e seu aliado Benjamin Netanyahu.

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