A estátua da justiça fica de costas para o STF. A recíproca é verdadeira?

Um brasileiro comum não é capaz de entender a confusão envolvendo ministros Toffoli e Moraes e seus familiares, o Banco Central, o Master, a Polícia Federal, o fundo Reag e o TCU. Sem esquecer do PCC, claro
Por que a estátua da Justiça fica de costas de para o Supremo Tribunal Federal? Podia ficar de lado, ou melhor ainda, lá dentro, pelo menos para ouvir — já que é cega — o que os ministros andam conversando quando não estão em público com aquele paninho nas costas. Aquele mantô, aliás, não é uma capa de super-herói, como eles pretendem fazer parecer em muitas ocasiões, mas sim uma toga cujo sentido simbólico é o da impessoalidade, imparcialidade e poder na apreciação das causas que envolvem os cidadãos e seus empreendimentos. Trata-se de parte da veste talar de origem etrusca que os romanos adaptaram para uso dos cidadãos livres, diferenciando-os dos exilados de qualquer direito. Hoje há muita gente exilada do direito de entender atos judiciais.
O caso do banco Master e seus desdobramentos demonstra que o capote judicial pode estar encobrindo também algumas situações que levariam a estátua a tapar, além dos olhos, o próprio nariz. Mas o nível de confusão nesse processo, na cobertura da imprensa, nas ações do TCU e na guerra digital movida por influenciadores da esquerda e da direita chegou a tal ponto que a população está absolutamente impedida de compreender a situação. A única conclusão possível é a de sempre: alguéns estão agindo para encobrir, esconder, acobertar, embaraçar, desnortear, desinformar, confundir, desentender, obscurecer, eludir, enganar e tumultuar o caso. Por quê? Só pode ser porque os desvãos dessa história estão cheios de lama que sujou ou pode sujar os paninhos de certos ministros, os sapatos de diversas autoridades, a reputação de muitos “empresários” e as contas bancárias de todos os envolvidos.
Um resumo dessa bagunça, feito descronologicamente, como um filme modernoso, leva a um enredo mais ou menos assim:
- o Banco Central decretou intervenção na empresa Reag, que é uma gestora de investimentos, porque essa empresa tomava dinheiro do Master, que prorrogava os pagamentos de parcelas, e pode ter investido parte dos recursos no próprio banco;
- o BC também havia liquidado o Master, que teve negócios fraudulentos com o Banco Regional de Brasília e armou calote contra investidores — entre eles fundos de pensão de entidades oficiais;
- a Reag fez investimentos em empreendimentos de familiares do ministro Dias Toffoli, que, como se sabe, andou para frente e para trás na condução da investigação da liquidação do Master depois de levar esse processo para o STF;
- reportagens sustentaram que o ministro Alexandre de Moraes — cuja mulher, advogada, tem contrato milionário com o Master — fez consultas ao presidente do Banco Central sobre a insolvência banco;
- houve desmentidos, mas o BC decretou sigilo sobre registros das conversas alegando risco de violação de dados pessoais e patrimoniais de Moraes;
- noutra investigação, a Reag é apontada como possível lavadora de dinheiro do PCC.
Pode-se concluir que, por vias tortas, dinheiro manipulado pelo crime organizado acabou chegando à conta bancária de familiares de ministros do STF, mesmo que eles não soubessem disso? Só mesmo uma investigação completamente aberta e livre da influência de Moraes e Toffoli pode dar conta desse pandemônio. Seria muito bem-vinda. Os dois ministros deveriam ser os principais interessados nessa possibilidade. O que Moraes já fez para desvendar e punir atentados contra a democracia nunca será apagado da história. A participação de Toffoli em julgamentos relevantes, do mesmo modo, dá brilho a sua biografia. As pataquadas do caso Master são um problema que, espera-se, poderiam esclarecer.