As novas “adegas” são mais um investimento impune dos criminosos

As novas “adegas” são mais um investimento impune dos criminosos

Estabelecimentos que não sofrem nenhum tipo de controle vendem bebidas altamente suspeitas e reúnem cachaceiros e baderneiros, sob patrocínio do PCC e da leniência das autoridades

Nem é preciso rodar muito por São Paulo, fora das áreas centrais, para perceber que há um novo fenômeno comercial e etílico proliferando como cogumelo em tronco podre. As “adegas” estão por todo lado. Não aquelas variadas, bem abastecidas, em que se compram bebidas finas e rótulos importados. Não. Essas novas “adegas” oferecem cerveja, com destaque para as marcas populares, vinho baratinho e destilados ordinários, muitos em embalagem plástica — quando muito têm uísque nacional, vodca e gim altamente suspeitos. Suspeitíssimos principalmente quando disponíveis em garrafas originais cheias de líquido falsificado.

Foi em algumas delas, por sinal, que desavisados há alguns meses andaram comprando produtos à base metanol. Pelo menos sete não sobreviveram à intoxicação. Houve um alarido jornalístico, policial e sanitário. Mas, como acontece frequentemente, novas notícias, outras ocorrências e atentados diversos à salubridade acabaram por ganhar a imprensa, agitar as delegacias e ocupar os fiscais. As “adegas”, excetuada a meia dúzia feita de exemplo na companhia de alguns bares, essas resistiram, mantêm-se abertas e — se supostamente não estão vendendo metanol — até se multiplicam, com novos empreendimentos inaugurados a cada semana.

São estabelecimentos quase padronizados, de uma porta só, com estoque e atendente protegidos à noite por grades de ferro com um único quadradinho livre, por onde entra o dinheiro, passa o cartão e saem as latas e garrafas. Boa parte não fecha nunca. Muitas estavam abertas no primeiro dia do ano, quando praticamente todo o comércio desce as portas, porque a data, para muitos comemorada a álcool, não podia ser desperdiçada. O melhor mesmo, para as “adegas”, é quando a concorrência está fechada, tarde de noite, porque a clientela ainda tem sede e poucas opções para saciá-la. Muitos fregueses, às vezes dezenas, vão com tanta voracidade às garrafas que é ali mesmo, junto ao meio fio, que consomem doses sobre doses. Alguns estão de carro, têm som potente e transformam a calçada num botecão animado.

Não há razão para censurar a freguesia que busca uma cachacinha porque, afinal, lazer não sobra na periferia e esse divertimento etílico nacional é imemorial. Mas há, além dos barulhentos e dos que bebem antes e durante a condução de veículos, problemas de outra natureza na disseminação das “adegas”: sua ligação com uma rede clandestina de fabricação e distribuição de bebidas, sua situação fiscal e trabalhista geralmente irregular e, principalmente, a sombra do PCC atrás de boa parte das fachadas e letreiros. A gangue — que não tem por que ser chamada de organização criminosa, como se fosse uma instituição — financia muitos desses negócios, abastece por meio de fabricantes ilegais e injeta dinheiro sujo no sistema bancário com os CNPJs dos comerciantes. Fiscais não são muito eficientes contando doses e garrafas de produto barato nem existe quantidade suficiente deles para ação no comércio miúdo.

Essa conexão traz novos elementos gravíssimos para uma questão que já teve outros panos de fundo. Lá pelo começo do milênio a rede de supermercados Pão de Açúcar mantinha as lojas de bairro de São Paulo abertas 24 horas. No meio da madrugada, os estacionamentos se enchiam de cachaceiros ouvindo som alto e consumindo bebidas compradas ali mesmo e nem sempre os seguranças conseguiam resolver o problema. Essa não foi a única razão, mas teve influência na decisão do grupo de encerrar o atendimento tardio em 2014. Era mal negócio junto à vizinhança sustentar a balbúrdia que acordava as pessoas, animava os cães a latir e resultava frequentemente em brigas entre os participantes da bebedeira.

Cresceu, a partir daí, a concentração de manguaceiros nos postos de gasolina cujas lojas de conveniência passam a noite abertas ao público. A bebida em geral é bem mais cara do que nos mercados, mas mesmo assim há muitos estabelecimentos que vendem bem no horário noturno, apesar das cenas de embriaguez quase convulsiva, brigas e disputas sonoras entre donos de veículos que, com os porta-malas abertos, exibem o tamanho dos alto-falantes e de sua incivilidade. Como essa concentrações se dão em áreas bem iluminadas e de fácil acesso, são também muito frequentadas pelas rondas policiais, o que produz alívios momentâneos no entusiasmo da turma.

A lei seca com tolerância zero, vigente desde 2012, foi útil para reduzir acidentes e mortes no trânsito, incluindo o período da madrugada, mas esse pessoal confia bastante na previsibilidade da fiscalização e também nas redes sociais, nas quais não faltam grupos que disseminam alertas sobre a localização de comandos policiais. O Telegram tem comunidades divididas até por bairro para espalhar esse tipo de informação. Existem projetos que propõem criminalizar a troca de mensagens sobre blitze com pouca chance de prosperar e, prosperando, quase nenhuma de prender alguém. Por isso, o que prospera mesmo são as oportunidades para tomar uma (ou duas, ou mais) e, depois de alguma arruaça, sair dirigindo e ameaçando causar acidentes.

Nova York, na época em que as gangues dominavam as ruas, tinha situações parecidas. Chicago também. Lá, parte dos problemas foi controlada com medidas duras, daquelas que até podem fazer certas camadas políticas reclamar de abusos antidemocráticos. Enfrentar essas condições exige até um certo desprendimento eleitoral, para tomar decisões não muito populares. Para azar dos cidadãos, não há políticos com essa disposição nem disciplina na polícia para agir sem exagerar. O som alto, os enfrentamentos entre beberrões e até a presença do crime no controle comercial desses negócios tendem a continuar por muito tempo.

0 0 votos
Classificação do artigo
Inscrever-se
Notificar de
guest
0 Comentários
mais recentes
mais antigos Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários
0
Sua opinião é importante. Comente!x