As favelas não deixaram de ser favelas ao ser rebatizadas como comunidades

A tucanização linguística só serve para dar contornos de normalização ao que não é normal nem tolerável. Pelo contrário, deixa anomalias sociais e urbanas mais distantes da solução de seus problemas. Enquanto isso, o que era bairro vira favela sob a denominação de comunidade
Favelas são aglomerados habitacionais em que as pessoas vivem, basicamente por questões econômicas, em condições indignas de sobrevivência. Com muito boas intenções e resultados duvidosos, nos anos próximos à virada do milênio tornou-se comum chamar as favelas de “comunidades”. A ideia por trás da mudança era desfazer a simbologia associada ao termo original, então associado a lugar perigoso, insalubre, caótico, desgovernado, com famílias desestruturadas, destituído de serviços decentes e submetido administrativamente mais aos criminosos do que ao poder público.
Décadas depois, as favelas permanecem iguais, por mais que iniciativas de organização social tenham brotado dentro delas — como exceções midiáticas. O termo comunidade, que pretendia valorizar esses agrupamentos como locais de vivência, resistência e manifestação cultural, agregou, em contrapartida, os conceitos negativos antes exclusivos da palavra “favela” e, para piorar, promove , semanticamente, uma imagem de normalização desses espaços, como se fossem bairros comuns marcados por características socialmente perversas. Mais grave ainda: com o crescimento das gangues, das milícias, da corrupção e violência policial sobre muitas áreas periféricas ou nichos urbanos de pobreza e insalubridade, deu-se o oposto.
Atualmente, bairros que antes não se encaixavam do conceito de favela por ter asfalto, iluminação, casas de alvenaria, água encanada e transporte público foram abarcados pela definição nova de comunidade na medida em que os serviços se deterioraram, o crime se ampliou e a coesão familiar saiu pela porta dos fundos. As favelas, e os problemas que existiam dentro delas demandando ações sociais, investimentos públicos e solidariedade comunitária, transbordaram para além de seus contornos. A tucanização linguística (ou suavização da imagem pela troca da denominação sem alteração do conteúdo) serviu para aliviar os sentidos de urgência social e de anormalidade urbanística que havia no termo “favela”.
O mesmo pode valer para presídios juvenis convertidos em casas de custódia, manicômios em residências terapêuticas, cadeias em unidades penais e dezenas de outros locais cuja chamada ressignificação acontece apenas do lado de fora de seus limites. Lá dentro, as favelas continuam favelas, com as mesmas carências. Enxergá-las, de fora, como comunidades reduz a pressão que deveria haver sobre as autoridades no sentido de atender às demandas poderiam fazê-las deixar de ser o que são. Favelas.