Mudança de estratégia, e não de caráter, põe na mídia a onda do michellismo

É preciso recordar quem é, como se comporta, o que fez e o que disse Michelle Bolsonaro para deixar claro que está em andamento a implantação de esperteza de marketing cujo objetivo é incensar a candidatura de Tarcísio de Freitas, o queridinho da grande imprensa
Chama a atenção, mas não surpreende, o fato de a grande imprensa estar dando trela de convencimento a uma reconstrução da imagem de Michelle Bolsonaro, animada com o que esse comportamento pode fazer pela candidatura de Tarcísio de Freitas, ungido candidato da mídia a presidente antes mesmo de ele se vestir para as urnas. O michellismo é a onda deste momento em que a ex-primeira-dama surge nos jornais quase como paladina da pacificação à direita e ao centro, até mesmo em artigos nos quais a fonte, mais do que claramente, foi a própria Michelle. Só que não, com se diz agora.
Quando uma parte da população brasileira sufocava nas UTIs, atacada pela Covid, e o presidente da época gravava vídeos fazendo anedotas e imitando a agonia dos doentes da Covid, a então primeira-dama vacinou-se nos Estados Unidos. O cartão de vacinação, que serviria de exemplo a milhões de brasileiros que recusavam a imunização seguindo o exemplo de seu marido, ela só mostrou dois anos depois. Em vez de engajar-se na campanha pela ampla vacinação no país governado pelo esposo, ela concordou que ele encomendasse a fraude de cartões de do SUS para si e para a filha do casal.
Em cultos religiosos, Michelle Bolsonaro deixou-se gravar falando em “línguas” que seriam, conforme práticas religiosas, uma forma de comunicação radical com Deus. Comemorava, na ocasião, a aprovação do advogado André Mendonça pelo Senado como ministro do STF. Ela até pode acreditar na glossolalia, como se chama o fenômeno, ou ser influenciável psicologicamente a ponto de praticá-la com absoluta boa-fé e inconscientemente, mas a primeira-dama, mesmo que não deseje, tem um papel cerimonial e social que recomenda distanciar religião e Estado, conforme os princípio republicanos e Estado.
Depois da eleição do marido, Michelle celebrou a oportunidade dada por Deus ao Brasil para conhecer o “verdadeiro Jair”. Machista, misógino e racista, Bolsonaro cumpre, em família e na política, o figurino que a ex-primeira-dama atribui ao que considera cabeça do casal — “machão, gestor e administrador” — enquanto a ela, e às mulheres em geral, deve ser reservado o papel de “submissão saudável”. Quando teve oportunidade, ela mesma foi fundo em ações preconceituosas, sobretudo a respeito de religiões de matriz africana. Compartilhou, por exemplo, vídeo que as associam a práticas demoníacas — embora não poucas vezes reclame haver discriminação contra evangélicos.
Essa é a “verdadeira” Michelle Bolsonaro que se revelou ao longo dos anos, disse que o marido estava sendo torturado na cela especial da Polícia Federal, atacou adversários usando adjetivos como maldito e ordinário, mistifica a política e chama de demônio até os vizinhos ideológicos. Usou cartão de crédito em nome de amiga por uma década, pagando as faturas em dinheiro, e recebia na conta corrente depósitos feitos pelo amigão de faz tudo do marido, Fabrício Queiroz.
Com essa folha corrida, posa, de repente, de sensata negociadora que vai respeitosamente ao STF — o mesmo STF que ela afirmava ter colocado o Congresso de joelhos — para convencer ministros a aliviar a prisão do marido, o que não passa de uma evidente estratégia nova no marketing bolsonarista para tirar do corner político a família e os aliados que precisam de eleitorado mais amplo para ter chance no próximo pleito. Lembra até o próprio marido no interrogatório diante de Alexandre de Moraes, quando o ex-presidente só faltou beijar a mão do ministro. Só que não, como se diz agora.
Acho que a Michelle vai ser vice na chapa do Tarcísio.