Conheça a diabrotica virgifera virgifera. Quem é, o que faz e onde pode estar

Ela poderia ser personagem de um filme de Luis Buñuel, de uma peça de Henrik Ibsen, de um livro de Campos Carvalho, de uma obra de Edgard Alan Poe ou até de uma tela de Salvador Dalí. Mas não. Vive nas plantações de milho e é coadjuvante em rótulos de batata frita
Nutricionistas, médicos e até preparadores físicos recomendam: antes de comer qualquer coisa presente em embalagens coloridas disponíveis nos supermercados, leia o rótulo. Você vai se surpreender, na maior parte das vezes, com os escritos em letras minusculíssimas, que indicam ingredientes e aditivos incluídos nos chamados ultraprocessados. Corantes, conservantes, aromatizantes, emulsificantes e flavorizantes, identificados por nomes e códigos, compõem uma coleção de personagens que cairia melhor no roteiro um filme de terror. Mas, além deles, esses alimentos podem conter fragmentos de insetos e — pior — resíduos de produtos químicos usados no combate a pragas.
Procurando bem, acha-se até a diabrotica virgifera virgifera, nome científico por si só assustador para a broca-da-raiz do milho ocidental. A d. v. virgifera. (para os íntimos), que faz participação especial na rotulagem de algumas embalagens de batata frita, é um inseto que alguns podem achar bonitinho, amarelo e preto. Na fase larval, ataca as raízes do milharal. Quando adulta, come as folhas da planta. Dá tanta dor de cabeça aos produtores, principalmente no chamado Cinturão do Milho, nos Estados Unidos, que ganhou o apelido de “inseto bilionário”, porque, segundo estimativas, causa perdas anuais de US$ 2 bilhões na produção e consome mais U$ 1 bilhão em gastos com o controle de infestações.
Não está claro se seu nome se associa à batata frita por causa do óleo de milho usado na cocção ou se bandos de d. v. virgifera andaram atacando também os batatais. A menção a certos nomes científicos também pode ocorrer em embalagens quando um alimento transgênico foi engenheirado com proteínas de determinados insetos. No entanto, isso tudo é questão técnica demais e o que importa é saber dos riscos eventuais de encontrar na comida fragmentos do besouro, traços de proteína dele ou algum restinho de agente químico usado para combatê-lo.
De acordo com a indústria, essas possibilidades são absolutamente controladas e a saúde do consumidor não é afetada por nenhuma delas. Conforme a legislação, tanto a brasileira, quanto a americana (relevante neste caso porque há oferta aqui de salgadinhos importados de lá), também está tudo sob controle. A Resolução da Diretoria Colegiada n° 14, da Anvisa, de 2014, dispõe sobre matérias estranhas macroscópicas e microscópicas em alimentos e bebidas e seus limites de tolerância. Alguns resquícios de contaminantes são considerados “matérias estranhas inevitáveis”. Então a d. v. virgifera, teoricamente, só ataca mesmo as plantas e o bolso dos produtores. Seria, assim, apenas uma curiosidade o seu registro na batata frita.
A questão é que, ainda que o besouro ou o que a ele está associado possam mesmo não representar nenhum mal, a tolerância quanto ao que vem junto aos processados está longe ser unanimidade científica. Na semana passada, voltou a circular a notícia de que presunto fatiado e diversos embutidos são considerados cancerígenos pela Organização Mundial da Saúde, um risco conhecido desde 2015. O consumo regular de nitritos e nitratos usados nesses produtos está no mesmo nível de atenção relacionado ao cigarro, ao amianto e à fumaça de óleo diesel. Houve redução de limites admitidos no Brasil em 2023, mas em nível menor do que se registrou na União Europeia.
Já que a d. v. virgifera propociona uma opotunidade, vale conhecer o estado atual da arte de maquiar produtos com aditivos que podem, de algum modo, causar danos à saúde:
- Azodicarbonamida pode ser usada no Mercosul como melhorador de farinha. A OMS associa a substância à asma e a irritações de pele. Foi banida pela União Europeia em 2005.
- Bromato de potássio é proibido no país para uso em alimentos, mas relatório da Anvisa de 2024 informa que o aditivo foi detectado em amostras de produtos (texto em inglês) analisadas entre 2021 e 2023. Funciona para fortalecer o glúten, branquear massas e melhorar a textura.
- Dióxido de titânio, banido na Europa, continua legalizado no Brasil como corante branco para doces, molhos e bolos. Projeto de lei de 2022 para proibir o uso ainda tramita na Câmara. Uma proposta anterior, de 2011, terminou arquivada.
- Hidroxianisol butilado é um antioxidante e conservante liberado no Brasil para alimentos, cosméticos e rações. Nos países europeus não pode ser usado em alimentos infantis. Considerado um desregulador endócrino por alguns estudos, também é aplicado em embalagens para que se transfira para o alimento ao longo do tempo. Pode ainda estar na composição de brinquedos, como massinhas. Frequentemente é utilizado em conjunto com hidroxianisol butilado, outro aditivo apontado como produto tóxico.
- Propilparabeno é um conservante antimicrobiano cujo uso é permitido no Brasil para cosméticos, incluindo produtos para crianças. Na Europa, só pode ser usado em loções, cremes, hidratantes e desodorantes para adultos. Os EUA e outros países que adotam como referência a legislação da FDA admitem seu uso. Estudos associam o produto a disfunções endócrinas e riscos de câncer de mama.
- Vermelho 2G é um corante. Usado no Brasil em embutidos e hamburgueres, entre outros produtos, está relacionado, por algumas pesquisas, a alergias e risco de câncer. A legislação europeia é bem mais restritiva. EUA, Canadá, Austrália e Japão proíbem a utilização em alimentos.
- Vermelho 3 também é um corante sintético que está liberado no Brasil para alimentos, incluindo granulados coloridos e balas; na Europa, é admitido quase que exclusivamente para cerejas em conserva e frutas cristalizadas. Foi proibido nos EUA em 2025 por pesquisas que o associam a tumores de tireoide em animais e possíveis distúrbios de comportamento, como hiperatividade em crianças.
A lista é bem mais ampla, mas esses exemplos já demonstram que, no caso de alimentos, é bem melhor consumir comida de verdade e evitar produtos processados pela indústria. De quebra, ela indica também mesmo na hora de comprar cosméticos, comida para animais e até brinquedos, vale analisar bem os rótulos. Num país que já tem mais smartphones do que seres humanos, não custa nada, no momento da compra, pesquisar o quê exatamente significam os nomes, códigos e designações numéricas registradas nas embalagens.