Os bolsoriguaios testam seu modelo ideológico do lado de lá da fronteira

Frustrados o plano golpista e a expectativa de um vale-tudo econômico, “patriotas” migram para o Paraguai ou transferem negócios para lá. São motivados por redes sociais, pelos especuladores agrícolas e pela propaganda de Eduardo Bolsonaro — que prefere o conforto dos EUA
Brasileiros migrando investimentos ou fisicamente para o Paraguai não é um fenômeno novo. Isso acontece desde o fim da Guerra do Paraguai (1870), que matou 90% da população masculina daquele pais, arrasou a economia e a infraestrutura e ainda comeu 40% do território em decorrência do Tratado Secreto de 1865 (saiba mais). A novidade é que, passados 150 anos, o país transformado em quintal das potências locais — Brasil e Argentina — tornou-se, principalmente a partir de 2023, uma espécie de Eldorado dos bolsonaristas de classe média. São os bolsoriguaios.
Eles tiveram frustrada a expectativa de consolidar aqui um vale-tudo econômico com retrocessos sociais e ambientais e se indignaram com o desmoronamento do sonho golpista. Em consequência, hordas de “patriotas” migram agora para o país vizinho ou transferem negócios para lá. A motivação, explícita e enganosamente fermentada pela propaganda pró Paraguai veiculada nas suas redes sociais, é usufruir de um suposto paraíso no qual vale a mística de que nação boa não tem leis trabalhistas, assistência social, impostos, regulação ambiental e grande impedimento para se adquirir armamentos.
Imaginam também que, levando recursos e investimentos para outro país, agravam os problemas econômicos do governo incumbente no Brasil e facilitam as coisas para que a extrema direita vença as próximas eleições presidenciais. Há casos de empresários que têm negócios de grande porte ou alto nível de sofisticação e que migram para os Estados Unidos. Mas no segmento médio, incapaz de lidar com questões legais, diplomáticas, de custo de vida, de câmbio desfavorável e até de regulação (que não é tão liberal em terras americanas quanto querem acreditar), parte mesmo para o historicamente espoliado Paraguai.
Nosso vizinho, por seu lado, apêndice notável das economias brasileira e argentina, esforça-se para oferecer ambiente confortável ao bem-vindo impulso financeiro verde-amarelo. Se pudessem, esses bolsonaristas migrariam para a Argentina de Javier Milei, o presidente roqueiro ideologicamente ainda mais afinado com suas convicções. Só que as reformas naquele país elevaram o câmbio e a complexidade econômica local é tudo o que eles não desejam enfrentar. No Paraguai, o presidente Santiago Peña não se comporta como um direitista aloprado à la Milei e Bolsonaro, mas se alinha com com os princípios conservadores tanto na área dos costumes quanto em relação à economia. Os paraguaios, por seu lado, apenas tentam consolidar sua democracia e procuram caminhos para superar seus problemas. Não têm responsabilidade, nem merecem, por sinal, tornar-se uma segunda pátria para os bolsoriguaios.
Mas o que importa, para os novos brazucas emigados e candidatos a emigrar, é que não mexa nas características ultraliberais que facilitam a vida dos que têm dinheiro, ainda que mantenham no sacrifício os que não têm. Proselitistas da migração manchetam na internet que o custo de vida no Paraguai é 30% menor que no Brasil, os impostos são de 10% sobre a renda local e sobre o faturamento das empresas, gastos com energia equivalem a um terço dos que vigem aqui, custos trabalhistas representam pouco mais de 15% dos salários e, principalmente, que não se cobra nenhuma taxa de dinheiro recebido do exterior — ou seja, aposentados, nômades digitais e mesmo investidores nada pagam para internalizar recursos.
Também há isenção para importações de bens de capital e só 1% de imposto para exportações lastreadas na chamada Lei de Maquila, inspirada pela tributação mexicana para produção de bens destinados ao mercado externo. Trata-se, como se pode facilmente perceber, de um conjunto de medidas que busca a entrada máxima de recursos e, pelo qual, sacrificam-se os cofres públicos — e os que deles mais dependem — para obter crescimento. A carga tributária brasileira é de 33,2 (2024). A americana varia entre 27% e 28%. A do Paraguai está em 14%. O grande esforço de gasto público do Paraguai se concentra na infraestrutura. Impostos e o pagamento que o Brasil faz anualmente pela energia de Itaipu (de até 15% do PIB paraguaio) custeiam a melhoria de uma malha viária que há alguns anos tinha só 10% de pavimentação.
Por falta de investimentos, há significativa dificuldade para melhorar os sofríveis rankings de acesso e de qualidade na educação e de prestar razoáveis serviços de saúde. Cerca de 10% dos paraguaios de Ciudad del Este, na fronteira brasileira, têm cartão de saúde do SUS, em Foz do Iguaçu. Há, de fato, milhares de estudantes cursando medicina tanto no Paraguai quanto na Bolívia, em instituições privadas que cobram menos que no Brasil. No entanto, boa parte presta vestibular novamente aqui, ao longo do curso, porque o programa Revalida, de diplomas superiores, tem altos índices de reprovação para médicos formados no exterior.
Num resumo dessa ópera bolsonarista brasilguaia, a debandada para aquele país só fica de pé pelas circunstâncias ideológicas e como resultado histórico de um processo de espoliação. O próprio termo brasilguaio surgiu num contexto nada celebrável. Mortos os índigenas do Sul do país pelos bugreiros e ocupadas suas terras, há pouco mais de um século (assunto que já foi abordado aqui em texto sobre Jorginho Mello), a expansão agrícola brasileira ultrapassou a fronteira a partir de 1950, com o financiamento de milícias que também caçaram, expropriaram e escravizaram os Achés no leste do Paraguai com a contribuição da ditadura de Alfredo Stroessner. Hoje, os tais brasilguaios dominam mais de 70% da área de produção de grãos do país e embolsam os lucros das exportações.
Um desses próceres do imperialismo agrícola vem a ser o apresentador de televisão Carlos Massa, o Ratinho, cujo filho, Júnior, governa o Paraná e é cotado para uma candidatura presidencial da direita nas eleições deste ano. Ratinho pai até obteve cidadania e residência permanente no Paraguai, em busca de facilidades ainda maiores para seus negócios imobiliários e na produção de soja e gado. Não por acaso é propagandista das facilidades encontradas por lá e oráculo seguido pelos pregadores do êxodo bolsonarista. Faz parceria com Eduardo Bolsonaro, que frequentemente cita o país vizinho como modelo de sucesso econômico, de política fiscal e de ações conservadoras, embora prefira os EUA, onde vive à custa de milhões de dólares enviados pelo pai, de negócios voltados para a doutrinação direitista e, até dezembro passado, de salários como deputado.
O projeto bolsonarista, como se sabe, inclui, além de reduzir o Judiciário a uma repartição obediente ao Executivo, quebrar a legislação ambiental para fazer da Amazônia um grande Paraguai. Os bolsoriguaios são, nesse conjunto, ratos de laboratório que experimentam as condições ambientais. O que nem se interessam por saber é que seu modelo tem 47% da economia encapsulada no mercado informal, a 149ª posição no ranking de percepção de corrupção que avalia 180 países (com o Brasil na nada honrosa 107ª colocação), 20% da população abaixo da linha de pobreza, a liderança sul-americana na produção e exportação de maconha (além de ser hub da cocaína) e o 4ª lugar no índice mundial de atividade criminosa no Índice Mundial sobre Crime Organizado.
Ah, dizem, mas é mais seguro para a população do que o Brasil. É, sim, e dá mais facilidades a quem deseja comprar armas. Segundo relatório de uma CPI de 2006, 66% do armamento contrabandeado para o Brasil vem de lá. A estimativa é de que 40% de revólveres, metralhadoras e fuzis vendidos legalmente no Paraguai sejam contrabandeados para o Brasil. Até a Gazeta do Povo, bem conhecida por defender posições conservadoras, incluindo o direito de armar cidadãos, tem reportagem a respeito. Muito boa, por sinal.