Alckmin, o sonso, é a carta na manga de Lula para o governo de São Paulo

Nos anos 1990, quando era vice de Mário Covas em São Paulo, Geraldo Alckmin foi convidado por um repórter da Veja, via assessoria, para almoçar e trocar ideias sobre política. São Paulo tinha, como hoje, excelente oferta de grandes restaurantes, churrascarias memoráveis e também pequenos bistrôs de cozinha impecável, próprios para conversas reservadas. Instado a escolher um local de que gostasse e tivesse comida de sua preferência, Alckmin marcou o encontro para o restaurante Lellis da Alameda Campinas, uma cantinona italiana, de boa comida, conhecida pela generosidade dos pratos e pelo barulho da clientela de famílias de classe média. Ele queria comer o cabrito com batatas que costumava saborear aos domingos ali mesmo, com a mulher e os filhos. Sabia o nome dos garçons, não precisava de cardápio para suas escolhas e recheou a conversa com platitudes dignas de um típico prefeito do interior paulista.
Ambição? “Não”, não tinha. Suceder Mário Covas? “Difícil, né? Tem tanta gente mais qualificada. Eu sou um bom vice porque tenho boa interlocução com outros partidos.” Inimigos? “Alguns”, mas circunstanciais; “amanhã podem não ser mais”. Um grande sonho, pelo menos? “Voltar para Pindamonhangaba”, a cidade vale-paraibana chamada Princesa do Norte pelo poeta Emilio Zaluar; “se der, ser prefeito de novo”. Sobrou cabrito, acabou a conversa. Alckmin saiu com a impressão, correta, de que o repórter era um tipo pretencioso e objetivo demais nas perguntas, sem nenhuma sensibilidade política. O repórter saiu com a impressão, errada, de que o vice faria carreira reversa descenso degraus como deputado e, futuramente, realizando o sonho na prefeitura de Pinda, como a chamam os íntimos.
Alckmin é sonso, como se dizia antigamente. Sua conversa dá voltas em torno do nada, adormece plateias e fixa-se sempre nos detalhes mais técnicos e chatos. Foi por isso que se deu mal nas eleições presidenciais de 2006, tornando-se um caso raríssimo de candidato que perdeu votos entre o primeiro e o segundo turnos — no seu caso, 2,4 milhões de votos, enquanto Lula, seu adversário direto, acrescentou ao balaio eleitoral quase 12 milhões de eleitores. Mas não foi assim nas três eleições para governador que Alckmin venceu em São Paulo, tornando-se o candidato mais vezes eleito no Estado e a liderança que mais tempo comandou o Palácio dos Bandeirantes. No total, foram 13 anos de mandato, contando um como sucessor de Mário Covas, que morreu no exercício do cargo.
É por ser sonso que a carreira do atual vice-presidente tem essa curiosidade. Prefeitos, principalmente os do interior de São Paulo, gostam de prosa fiada, de ser longamente ouvidos quando contam as coisas de suas cidades e narram os planos, as dificuldades e as fofocas políticas. São eles, na verdade, a peça mais importante das eleições estaduais porque têm influência de fato sobre o eleitorado local. Quem tem os prefeitos tem tudo para se eleger no estado. Alckmin sempre os teve a seu lado. Ele os deixa falar à vontade e sabe que não querem que diga o que devem fazer. Só desejam uma espécie de psicanalise política para tomar as decisões que já estavam cogitando.
A dificuldade do vice-presidente é contagiar o eleitorado nacional, que espera entusiasmo, vibração, gritos, arroubos… O vice de Lula não tem isso. Ulysses Guimarães, que passou por uma eleição presidencial com resultado humilhante, também não tinha. Costureiros da política não funcionam no palco nacional. Mas foi apenas a presença de Alckmin na chapa com Lula que evitou, em 2022, um massacre ainda maior do candidato petista nas cidades paulistas interioranas. Lula perdeu para Bolsonaro, nesses colégios eleitorais, por uma diferença de quase 20% dos votos. O presidente sabe que, se não fosse Alckmin, teria perdido por bem mais diante de um eleitorado agroconservador que rejeita o discurso social e suspeita profundamente da honestidade petista.
Por essas razões Lula trouxe o nome de Alckmin à lembrança novamente no contexto de São Paulo na última sexta-feira, dia 6. As simulações de institutos de pesquisa mostram que ele é o único possível candidato capaz de fazer Tarcísio de Freitas ser levado a disputar o segundo turno. É isso que o presidente deseja. Alckmin, que não tem a rejeição de Lula colada em seu perfil e que dedicou boa parte dos últimos anos ao atendimento também de prefeitos no Ministério da Indústria e Comércio, é peça-chave da próxima campanha. Tem 90% de chance de ser o candidato apoiado pelo PT no estado. Desta vez, sua chance de ganhar é muito pequena. Mas a candidatura não terá esse objetivo.