Gente demais e investimentos de menos ameaçam o Litoral Norte

A poluição do mar se avizinha da Riviera de São Lourenço, o paraíso asséptico e pretensioso da classe média alta. Enquanto a região precisa prioritariamente de saneamento, fiscalização e punição para transgressões ambientais, o estado faz obras eleitoreiras
Para os paulistanos, as lindas praias nordestinas estavam muito mais próximas até a metade dos anos 1980. Ficavam no nordeste do estado, na região conhecida como Litoral Norte, entre a cidade do Guarujá e a divisa com o Rio de Janeiro. Região de areias brancas, beira-mar com todos os tipos de ondas e inclinações, cantos adornados com rios de água cristalina correndo sobre o fundo escuro típico de manguezais, estupendos promontórios debruçados sobre o mar e mata nativa nas molduras compunham um cenário paradisíaco que em boa parte só se alcançava de barco ou por trilhas de longo percurso, escalando morros entre uma praia e outra. Caiçaras cuidavam desses locais sem estradas, sem água, sem energia elétrica, sem nenhuma infraestrutura. Caraguatatuba, Ubatuba e São Sebastião facilitavam — bem pouco — o acesso a muitas delas. Borrachudos espantavam muita gente.
A ditadura e os sabujos que governavam o estado agiam, no entanto, como saúvas, comendo faixas de mata bem próximo às praias para construir a rodovia Rio-Santos, titulando áreas imensas e permitindo a privatização invasiva para especuladores imobiliários. Quando a estrada ficou pronta, os crimes ambientais se multiplicaram, com condomínios de luxo lindeiros aos rios mais bonitos, casas construídas nas áreas supostamente intocáveis de marinha, marinas incrustadas entre os morros mais vistosos. Óleo de embarcações, dejetos do fossas mal construídas e lama escorrida das obras, na área que tem as chuvas mais intensas do estado, começaram a fluir para os mangues e entupir os estuários. Sumiram os peixes, expulsaram-se os caiçaras, multiplicou-se o turismo predatório e desestruturado.
A areia mudou de cor e, em lugar das juçaras que marcavam a paisagem, agora são as bandeiras vermelhas da Cetesb que tremulam ao vento, indicando que nem o mar consegue mais dar conta da imundície acumulada e multiplicada em 40 anos. O sinal mais recente da destruição patrocinada pelo descaso e pela cobiça apareceu há alguns verões no canto norte da praia de São Lourenço, onde o rio que antes era refúgio de robalos bordejando pedras enormes agora carrega coliformes, sabão e garrafas plásticas. É uma perversa ironia o fato de que o esgoto comece a comer a lateral de uma praia e de um projeto que pretendeu ser modelo de cuidados ambientais e terminou virando o mais urbano e pretensioso bairro de classe média alta implantado à beira-mar.
A Riviera de São Lourenço, construída num planície costeira de quase 9 milhões de metros quadrados, com 4,5 quilômetros de praia praticamente plana e ondulação macia, não contribui, é verdade, com nenhuma gota de esgoto para a poluição marinha, embora tenha mais de 12.000 unidades, entre apartamentos, casas e espaços comerciais. Projeto de especuladores da Praias Paulistas S.A., cujas placas de propriedade foram plantadas junto com o início da Rio-Santos, o loteamento tem um sofisticado sistema de tratamento de resíduos que se tornou referência mundial para obras semelhantes. Em Dubai, por exemplo, há urbanização costeira que adota as mesmas soluções. Mas São Paulo não é Dubai. A ocupação desordenada do entorno e a Sabesp, que descuida do saneamento em toda a volta, produziram uma mancha poluidora que ameaça a ilha de conforto e entretenimento dos ricos proprietários da Riviera.
Há soluções sendo tentadas em vários pontos do Litoral Norte. Ilhabela cobra taxas de entrada e permanência para turistas. Projetos de unidades de tratamento de esgoto e programa de coleta de resíduos sólidos se desenvolvem em muitas localidades; e há até operação de limpeza do fundo do mar, realizada em Ubatuba. Mas, enquanto várias dessas propostas levam pelo menos três anos para dar algum resultado, o fluxo turístico cresce ainda mais, sobrecarregando a pequena estrutura existente e comprometendo o futuro. Para piorar a situação, a inversão eleitoreira de prioridades do governo estadual é nítida. Há quatro anos, foi inaugurada a segunda via da Rodovia dos Tamoios, que deságua em Caraguatatuba e é uma das principais vias de entrada na região. No ano passado, foi assinado o projeto do túnel submerso entre Santos e Guarujá, a partir do qual milhares de veículos passarão a ter acesso facilitado ao portal do Litoral Norte por um caminho atualmente afunilado pelas balsas.
É lógico que os paulistas de todas as regiões merecem ter acesso a uma costa que ainda guarda, em alguns recantos, mata e paisagens estupendas. Mas os antigos vícios políticos brasileiros deixam perceber que o estrago atual é apenas uma pequena amostra do que está por vir. Obras vistosas e acessos facilitados geram resultados eleitorais imediatos. Por outro lado, a falta daquelas que ninguém veria mas a todos iriam beneficiar leva os problemas a uma situação sem retorno e os turistas mais ricos ao aeroporto, rumo à praias do Nordeste. Isso, claro, enquanto os paraísos de lá resistirem a processos semelhantes e já iniciados em vários deles.