O presidente com um pacote de papel pardo embaixo do braço
Tenha um pouco de paciência. Este artigo pretende desvendar alguns detalhes da personalidade do atual ocupante da cadeira de presidente da República. Isso pode demorar alguns minutos e exige um exercício de raciocínio. O objetivo é entender se Bolsonaro – que faz elegia da tortura, orgulha-se da própria homofobia e se apega à mentira como tática de sobrevivência política, entre outras práticas que provocam espanto – é uma pessoa mal-intencionada, como parece, ou apenas um caso de caráter apodrecido em decorrência de circunstâncias da vida.
Comecemos lembrando um texto do cronista Lourenço Diaféria, por muitos anos titular de uma coluna na Folha de S.Paulo e depois autor de trabalhos memoráveis no Jornal da Tarde e em outras publicações.
Na crônica que vem ao caso, por sua relação com o cenário atual, o escritor lembrava que, toda vez que se via no centro de São Paulo uma aglomeração qualquer de curiosos, chamava a atenção a presença de um sujeito com um pacote de papel pardo sob o braço, o exemplo mais característico do que se chamava então de “popular”.
Era uma época (segunda metade do século passado) em que ainda se usava muito na imprensa o vocábulo “populares” para designar as rodas de pessoas em tornos de eventos curiosos. “Dezenas de populares acompanhavam o mágico de rua”, dizia-se, por exemplo, assim como: “O barulho dos tiros atraiu a atenção de muitos populares, que acorreram ao local ainda a tempo de ver a vítima exalar seu último suspiro”.
Era um tempo, como se pode notar, de muita dramaticidade nas narrativas jornalísticas. Mas vamos manter o foco no que interessa.
E o que interessa é que a primeira coisa a se registrar sobre o capitão Bolsonaro é seu comportamento típico de um popular, um cara que anda com um pacote de papel pardo embaixo do braço e, além de estar disponível para juntar-se aos curiosos diante de qualquer fato que chame a atenção, tem, em geral, opinião formada sobre qualquer assunto, quase sempre sem nenhum fundamento. É um sujeito sem filtro que chegou ao cargo máximo da política brasileira.
Se você já andou de táxi, esteve num churrasco da firma ou compareceu ao casamento de um primo distante, certamente já topou com um motorista, um contínuo ou um tio que é capaz de emitir juízo sobre futebol, artes plásticas, mecânica quântica e práticas culinárias medievais com a mesma segurança e sem o menor amparo da realidade.
Bolsonaro é um desses casos e, como todo popular, embora nunca se furte a emitir uma opinião, tem seus conceitos marcados por um viés qualquer, prefere alguns temas, seja por sua origem, profissão ou mera afinidade pessoal.
O popular taxista, por exemplo, tende a ser mais assertivo nas questões de engenharia de trânsito e demografia, dois elementos muito presentes na sua rotina urbana, mas muitos gostam também de pontificar sobre a vida de celebridades e teoria do Direito. O contínuo é mais desenvolto quanto a problemas de recursos humanos, gestão empresarial e macroeconomia, havendo ainda os especializados em prospecção mineral ou pandemias. O tio distante, muito provavelmente por ter sido porteiro de escola primária ou vendedor de enciclopédias, sente-se perito em pedagogia, administração pública, relações internacionais e biotecnologia, quando não se revela um conhecedor de vinhos asiáticos e de complexidades da relojoaria.
O atual presidente, que passou bom tempo nas fileiras militares, é, então, um popular com um pacote de papel pardo embaixo do braço, mas psicologicamente ainda fardado, o que o torna, por um lado, mais arrogante do que outros populares e, por outro, ainda mais insensato do que seus congêneres civis. Isso se explica em boa parte por sua trajetória dentro do uniforme.
Vale lembrar que, depois de se encantar na adolescência com os homens de farda que caçavam Carlos Lamarca no entorno de sua cidade, no Vale do Ribeira, Bolsonaro iniciou a formação para tornar-se oficial e havia chegado ao posto de capitão quando, já conhecido pelos superiores por sua ambição e pelas tentativas frustradas de liderar companheiros, enrascou-se entregando a si mesmo como envolvido num plano para explodir bombas em quartéis e também destruir uma barragem do rio Guandu, no Rio de Janeiro. Isso rendeu-lhe uma investigação militar que acabou por determinar o fim de sua carreira de sindicalista infiltrado na tropa.
Sim! Sindicalista! Talvez animado pela história de Lula e as greves que pararam o ABC paulista, na época o atual presidente fazia campanha por soldos melhores. Mas, como levaria um bom tempo para que o país percebesse uma greve entre os militares, caso conseguisse realizá-la, sua opção foi ameaçar o país com a possibilidade uma rebelião armada.
Não é difícil entender a atitude, pensando-se no tipo de personalidade composta a partir de um cara ambicioso que, sem grande inclinação para os estudos, alimenta-se culturalmente pelas orelhas, nas fileiras militares, ouvindo todo aquele blablablá sobre a missão das Forças Armadas, a contenção do comunismo e a tutela política a ser desempenhada pela caserna. Para piorar, por ter recebido instrução até apenas o posto de capitão, Bolsonaro jamais foi preparado para atividades estratégicas, que estão previstas no currículo do Exército apenas a partir de postos mais altos, que nunca galgou. Basicamente, não aprendeu o suficiente para ensinar, ou mesmo para pensar, mas absorveu os conceitos simplificados que emanam dos quarteis, como a defesa da Amazônia da cobiça internacional, a ideia de que ocupar território é sinônimo de desenvolvimento e, principalmente, a proposição segundo a qual quem pensa diferente é comunista, adversário, inimigo.
Resumindo: o Bolsonaro que se tem hoje na Presidência é produto da soma de ambição com ignorância, à qual se adicionaram também, ao longo do tempo, a desfaçatez diante da solidariedade social, o desprezo pela informação, a desídia em relação às causas democráticas e a vaidade que se empoça na personalidade de quem, por circunstâncias mais do que por mérito, faz uma carreira política alimentada pelo voto de pessoas que têm, do mesmo modo, vocação para levar embaixo do braço um pacote de papel pardo. Ou seja, é mesmo um caráter apodrecido pelo ambiente em que se desenvolveu, mas que, ao mesmo tempo, por saber que não é confiável a ninguém, desconfia de todos, como se houvesse no mundo apenas gente com perfil idêntico ao seu.
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