Lula lá, Haddad cá

Lula lá, Haddad cá

O ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad fez toda a campanha para a Presidência da República enfrentando a acusação de ser apenas um fantoche de Lula e a suposição de que, se eleito, teria como prioridade encontrar uma maneira de tirar da cadeia o ex-presidente, já então condenado em segunda instância por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no processo envolvendo o triplex do Guarujá.
Haddad foi o segundo colocado na eleição e amealhou 47 milhões de votos no segundo turno, 16 milhões a mais do que na primeira fase do pleito. Tinha, logo depois da eleição, a possibilidade de tornar-se elemento de referência na oposição ao governo Bolsonaro, criticando, com autoridade e principalmente com informações técnicas, tanto os movimentos do novo presidente para formar o novo governo quanto suas primeiras medidas na Presidência. Acumulou, portanto, potencial para liderar uma oposição consistente. E preferiu outro rumo.

Haddad poderia mover-se para negar a condição de poste vermelho de Lula e consolidar-se como um líder efetivo das oposições porque, por formação cultural, educacional e política, revelou-se preparado para uma jornada desse tipo. Suas gestões na prefeitura paulistana e no Ministério da Educação não foram perfeitas, mas tiveram mais pontos positivos do que criticáveis. Sua recente condenação por crime de falsidade ideológica para fins eleitorais, relativa à campanha de 2012 para a prefeitura de São Paulo, é, por tudo o que se conhece do processo, um erro judicial abissal e absurdo. Só que, curiosamente, faz mais para trazer o ex-prefeito à tona da vida pública do que aquilo que ele próprio vem realizando como retribuição da gigantesca votação recebida em 2018.
Quase tudo o que o Haddad fez a partir do dia seguinte à derrota nas urnas teve sentido contrário à consolidação de uma figura de liderança sólida e bem fundamentada, num comportamento de quem subestima a votação que recebeu e, de certo modo, dá razão aos que o criticavam na campanha. Isto foi percebido, primeiro, quando assumiu a condição de embaixador do movimento pela libertação de Lula, que é uma tentativa de estimular celebridades e autoridades de peso internacional a questionar o sistema judicial brasileiro vendendo a condenação exclusivamente como um processo político que se destinava a impedir o ex-presidente de candidatar-se novamente em 2018. Não é compreensível que a figura com a segunda maior projeção nacional no PT, depois de Lula e tendo ultrapassado Dilma por razões óbvias, tenha optado por converter-se em causídico da primeira.
Mas o aparente desprezo por sua própria performance no pleito ficou ainda mais evidente, mais tarde, ao tornar-se um crítico piadista da gestão Bolsonaro, abastecendo sua conta no Twitter com ironias, comportamento que se agravaria com a revelação de mensagens entre Sérgio Moro e promotores que atuaram na acusação de Lula, pelas quais se comprova a parcialidade do juiz na condução daquele julgamento. Memes e ironias em redes sociais, bem se sabe a esta altura, são ferramentas de desqualificação do debate público – e aliás usadas com grande competência pelos adversários de Haddad já na campanha presidencial.
(É importante pontuar que, evidentemente, tudo o que se soube até agora da relação entre Moro e os promotores fora dos autos demonstra que o processo relativo a Lula deve ser revisto em todas as etapas – mas sem esquecer que a matéria-prima sobre a qual todo o caso se assenta foi fornecida por delatores que eram íntimos da gestão petista, por ex-integrantes do partido mais do que abalizados para apresentar denúncias e pelo próprio comportamento de Lula, que estabeleceu relações privilegiadas com empreiteiros e delas tirou evidente proveito.)
Retomando o caso Haddad, qual sua alternativa para a reforma da Previdência (que chama de “pinguela”) e que orientação discutiu, para as posições assumidas nesse debate, com a bancada petista? O que pensa o ex-prefeito sobre a necessidade de reorganizar o sistema tributário brasileiro e quais pontos acha que seus correligionários deveriam defender no Congresso na discussão desse tema? O que tem a dizer sobre o andamento das contas públicas nos vários níveis da federação, diante da prolongada crise econômica? Sem piada ou sarcasmo, o que pode comentar sobre o comportamento do Bolsonaro e o que sugere para o enfrentamento de atitudes inadequadas do presidente? Como chamar a atenção de Bolsonaro para a liturgia do exercício de um cargo executivo?
É bem provável que o ex-prefeito tenha respostas para todas essas questões. Mas é um grande problema o fato de que elas não aparecem na rotina de suas manifestações públicas tanto quanto ele martela o slogan “Lula livre” ou faz chistes com as mancadas do novo governo.
Artigos do ex-prefeito têm pincelado temas relevantes com guache aguadíssimo. Sobre a crise na Argentina, afirmou que Bolsonaro, ao apoiar Macri, por reação popular, fortalece o peronismo – e nada pontuou sobre as consequências para as relações bilaterais do agravamento do cenário econômico no país vizinho. No campo da educação, tem defendido sua gestão no governo federal com pontadas sobre sucessores no Ministério, incluindo correligionários.
Tratou da óbvia necessidade de se reduzir os spreads bancários sem contextualizar o cenário em que isso seria possível. Recordou sua proposta de campanha de ITR progressivo num texto em que classifica a agroindústria, indiscriminadamente, como “monocultura agrotóxica” responsável também por um “desmatamento pecuário extrativista”, um bom discurso para jovens ambientalistas alemães desconectados de responsabilidades quanto à economia e às relações de trocas internacionais.
Discutiu quase academicamente a forma como a Lava Jato escorregou, por alguns de seus integrantes, na direção de um projeto de poder, sem comparar como o exercício de governo pôs sua legenda na mesmo rumo, bem mais amplamente, com consequências dramáticas para o partido e para o país – entre elas a viabilização do candidato Bolsonaro.
Haddad teve um longo processo de formação em universidade pública, militou politicamente desde a juventude e aprendeu muito nessa trajetória, passou por cargos públicos nos quais se aperfeiçoou como gestor e disputou uma eleição acirrada, com marcado confronto ideológico. Como figura pública, deve ao país bem mais do que a condição de defensor de Lula, comentarista de ocasião e humorista inspirado pelo governo federal. Advogados, blogueiros e humoristas o Brasil tem de sobra. Políticos de qualidade fazem muita falta.

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Hermes Dagoberto
5 anos atrás

Olá, tudo bem!
vimos sua puplicação e achamos que poderia ser pertinente
colocar em nosso site:
http://planosdesaudehdm.com.br
Um grande abraço.

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