Ciro Gomes: curto, grosso e estratégico
Para a segurança do educador, Ciro Gomes deveria fazer um curso de educação a distância. Mas não há como negar que sua estratégia para 2022, que tem na largada a recusa a uma aliança de esquerda, está desenhada de modo interessante.
Num concurso de misses, certamente o ex-governador seria reprovado nos quesitos elegância e gentileza, mas como o caso é da corrida para a Presidência da República, já se sabe, considerando os três últimos eleitos para o posto, que a população não liga muito para erudição (Lula), articulação (Dilma) ou educação, afabilidade, cortesia e coerência (Bolsonaro).
Ciro, então, a despeito das grosserias que insiste em perpetrar para baixar o nível do debate ao ponto em que se considera imbatível, acerta a mão (não seria surpresa se ele dissesse “a pata”) quando escolhe para o primeiro confronto dessa jornada os que se alinham sob o que chamam de bandeiras progressistas. Não foi por outra razão que elogiou depreciativa e virulentamente a ex-candidata do PT ao governo do Rio de Janeiro.
Se há algo que ficou evidente nas eleições passadas, essa certeza é a de que a grande massa votou contra o PT e contra os partidos estabelecidos no poder desde a redemocratização (PSDB, PMDB e DEM, com mais destaque) – num movimento de rejeição ao modelo em que as agremiações abandonaram qualquer ideologia ou compromisso programático em nome da autopreservação.
Essa conclusão torna-se cristalina a cada trágico dia do governo Bolsonaro, na medida em que a gestão atual cumpre a fácil profecia de tropeçar nos próprios cadarços e, mesmo com o desencanto palpável de boa parte dos que elegeram o capitão, não é para as fileiras do lulismo e muito menos para a untuosidade doriana o que migram as massas desacorçoadas.
Migram, parece esperar Ciro, para um Bolsonaro light, alguém que se apresente como messias anti-insegurança, antidesemprego, anticorrupção e, principalmente, anti-aquilo-tudo-que-aconteceu. É quase certo, até a nova eleição, que o candidato terá de ser também anti-isto-que-está-acontecendo-agora.
Já se sabe também que a bem-nascida, bem-nutrida e mal-agradecida elite econômica quer fazer de Rodrigo Maia o próximo garoto sensação, mas basta tentar descobrir o desvão onde foi parar o anterior, Henrique Meirelles, para perceber o quanto está abaixo de zero a influência desse segmento no processo eleitoral. Para sorte de nação, aliás.*
Subindo a escada com a qual pretende alcançar o figurino que inclua a faixa presidencial, Ciro tem, no primeiro degrau, a tarefa simples de desmontar o discurso lulista, que já nasce de pé quebrado. Lula diz, em defesa de seus interesses, como sempre, que a eleição de Bolsonaro foi um movimento de rejeição à política. Um sofisma, entre muitos outros. O que os eleitores rejeitaram foi a política do tipo que se conheceu mais detalhadamente com as revelações trazidas à luz no rol de processos que levaram à condenação o cacique petista e uma porção de gente.
O presidenciável do PDT (até quando?) ainda acaricia parte do eleitorado petista defendendo a anulação do processo que julgou Lula. Até quando? A questão que fica para mais tarde tem relação com legitimidade de rever em detalhes esse processo, depois de conhecido o comportamento criminoso do juiz Sérgio Moro e dos torquemadas de Curitiba, mas também com o fato de tudo o que vazou via Intercept até agora não faz do petista automaticamente um inocente injustiçado.
Em algum momento Ciro deverá evidenciar, no seu discurso, a diferença entre “anulação do processo” e a pretensão petista de se obter a declaração de inocência de Lula, como pregam uns poucos apressados. Como já disse uma vez “Lula está preso, babaca”, para firmar posição, não é impossível venha a considerar justa, ou conveniente, uma nova condenação, depois da revisão do processo. Isso, evidentemente, é só uma especulação. O certo, mesmo, é que, diga o que disser, Ciro não escolherá palavras adequadas a ouvidos infantis.
(*) Alguém lembrou de Luciano Huck? Convenhamos: há outras maneiras de perder tempo e dignidade.