Por que Lula quer manter-se lá
A vida política brasileira é feita de ironias, desde um Descobrimento que nada descobriu, passando por uma Independência que manteve a dependência, chegando, para encurtar a história, a uma redemocratização que não teve eleição direta nem posse do indiretamente eleito e, num episódio recente, a um pleito para a Presidência que foi decidido por uma facada – haja vista que o vencedor não tinha condições intelectuais para enfrentar debates e foi salvo ao perder também as condições de saúde.
A nova ironia da nossa política é a existência de um prisioneiro que não quer sair da cadeia. Aliás, mais do que isso, só vive politicamente se continuar preso. Se for solto nos próximos meses, aí sim é que estará definitivamente condenado.
Lula tem essa condição irônica muito clara em sua cabeça e é por essa razão que faz questão de permanecer hospedado da Polícia Federal em Curitiba.
Enquanto está na cadeia, Lula atrai uma procissão de ativistas famosos e dá entrevistas com regularidade alegando não só que é inocente, mas também que a Lava Jato como um todo, naquilo que se refere ao PT e aos governos petistas, foi uma farsa urdida com o único propósito de impedi-lo de disputar as últimas eleições.
Com a sólida contribuição de Sérgio Moro e dos procuradores lava-jatistas, flagrados num complô que foi bem além da intenção de causar prejuízo ao líder petista, Lula ganhou um novo amplificador para seus gritos pela anulação de suas sentenças.
Ele sabe, também, que o melhor a esperar como resultado da análise que o STF ainda fará sobre o comportamento dos responsáveis pela Lava Jato é uma revisão de seus processos ou, com menor probabilidade, uma anulação que os levaria a começar tudo de novo, sem desprezo das provas já reunidas.
Posto em prisão domiciliar, com tornozeleira eletrônica, submetido à autorização judicial para qualquer movimento, incluindo receber visitas, o ex-presidente se tornaria uma espécie de exilado em seu próprio país e perderia a condição de bailarino político da qual hoje desfruta sob holofotes.
Afinal, quem daria importância aos protestos e reclamações de um sujeito que, condenado por corrupção, alcançou o privilégio de ter uma completa revisão de seus processos? Para piorar, existe sempre a possibilidade (grande) de que, ao final das revisões, Lula tenha as condenações mantidas, ou mesmo as sentenças ampliadas.
Lembraria, nessa hipótese, o caso de um secretário de estado paulista que, chamado de ladrão por um adversário político, processou-o por calúnia. E perdeu o processo.