O teatro do presidente sobre o crime da Rua C
A indignação de Bolsonaro contra a Globo tem todas as características de uma cena ensaiada há um bom tempo
A TV Globo fez bom jornalismo ao divulgar informações sobre o depoimento de um porteiro do condomínio Vivendas da Barra, funcionário que registrou no livro de visitantes a residência do então deputado Jair Bolsonaro como destino de Élcio Queiroz, quando este foi à casa de Ronnie Lessa poucas horas antes do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em 14 de março de 2018.
A gritaria do presidente em rede social, reclamando sobre um complô da emissora para desestabilizá-lo, tem todo o jeitão de um grande teatro encenado para a militância bolsonarista, como já é hábito do atual ocupante do Planalto. Bolsonaro, que afirmou até ter acionado Sérgio Moro para que o porteiro seja ouvido pela Polícia Federal, mencionou a hipótese de o funcionário do condomínio ter-se equivocado no registro, mas ignorou, aparentemente de propósito, que o relato contém outras informações sobre a visita de Élcio ao local.
Segundo o porteiro, Élcio informou a intenção de ir à casa número 58, na Rua C, a de Bolsonaro. O funcionário disse ter interfonado para o imóvel e recebido autorização para liberar o visitante de alguém que, acreditou, seria “seu Jair”. Em seguida, ainda conforme o depoimento, notou, pelo monitoramento das câmeras do condomínio, que Élcio tomou a direção de outra casa – a 66, de Ronnie – e voltou a contatar a residência do então deputado. A pessoa que atendeu – “seu Jair” novamente – afirmou então saber que a visita iria a outro imóvel, conforme relatou o porteiro.
Ronnie e Élcio estão presos e foram denunciados pelo Ministério Público por participarem do duplo homicídio. Naquele dia, saíram do condomínio Vivendas da Barra para a tocaia diante do local onde a vereadora tinha compromisso e aguardaram sua saída para perseguir o carro em que viajava e realizar a execução, conforme a conclusão das investigações.
O presidente Bolsonaro, que afirmou esperar o convite da Globo para esclarecer os fatos de viva voz no Jornal Nacional, também faz de conta que foi pego de surpresa pela revelação da notícia. Isso é claramente mentira, já que seu advogado, Frederick Wassef, foi ouvido pela reportagem e, por longos segundos, sustentou que o depoimento do porteiro é “uma farsa” criada para incriminar o presidente. Wassef teve ainda oportunidade de reiterar que, na data do crime, Bolsonaro estava em Brasília, como a própria Globo, aliás, fez questão de informar na abertura do Jornal Nacional, ao manchetear a história (vídeo completo aqui).
Evidentemente, o advogado já havia comunicado o presidente sobre a notícia a ser veiculada na noite de ontem, dia 29. A reação do ex-capitão só serve, portanto, para enfumaçar fatos que precisam efetivamente ser esclarecidos a partir de perguntas simples. Entre elas, quem poderia estar em sua casa naquela data e ter atendido ao interfone?; e por que Élcio declararia uma visita a seu endereço, se pretendia ir à casa de Ronnie?
O caso ganha contorno ainda mais teatral quando se tem a informação, dada pelo próprio presidente, de que sabia desse depoimento desde a noite de 9 de outubro, quando o governador Wilson Witzel teria relatado detalhes a ele num encontro no Clube Naval, no Rio de Janeiro. Só que a agenda oficial de Bolsonaro informa que ele teve um compromisso às 17h30 em Brasília nessa data e embarcou para São Paulo às 6h45 da manhã seguinte. Não há menção a uma viagem ao Rio. Pelo que se consegue recuperar, a última vez que Bolsonaro passou pelo Clube Naval foi em julho, para comparecer à festa julina da agremiação.
O JN procurou realçar que a menção ao nome do presidente no caso Marielle pode levar as investigações para a alçada do Supremo Tribunal Federal. Informou ainda que integrantes do Ministério Público do Rio foram ao ministro Dias Toffoli, presidente do STF, questionar, no dia 17 de outubro, se deviam continuar a investigação, e não informaram sobre essa consulta ao juiz encarregado do caso no âmbito estadual. Toffoli não teria, ainda, respondido aos procuradores.
A história do duplo homicídio de 14 de março de 2018 teve, claramente, um capítulo escrito a alguns metros da casa do então deputado Jair Bolsonaro, na Rua C, condomínio Vivendas da Barra. Agora, essa novela envolvendo milícias fluminenses com as quais o presidente sempre teve algumas ligações passou a incluir no enredo a própria residência do ex-capitão.
Vale recordar que em 26 de agosto deste ano Bolsonaro prometeu aos jornalistas plantados diante do Palácio da Alvorada um história muito grave que brevemente seria tornada pública e envolveria alguém muito próximo do presidente. (Veja o vídeo aqui.) Seria o caso a que se referiu naquele momento algum dos desdobramentos do crime da Rua C?
Eu mesmo comento, para incluir informação importante. A Veja divulgou na tarde do dia 30 de outubro que a procuradora Simone Sibilio deu à revista a informação de que o porteiro citado nesta história recondicionou seu relato e retirou as declarações sobre Élcio Queiroz ter apontado a casa de Bolsonaro como destino ao entrar no condomínio Vivendas da Barra na data da morte de Marielle. A nota de Veja coincide com o vem dizendo a respeito o vereador Carlos Bolsonaro, filho do presidente. Certamente o caso vai longe, principalmente porque a Globo fundamentou sua reportagem no livro de anotações de entradas no condomínio, onde aparece o registro da casa do ex-capitão.