O país está cada vez mais injusto
Os mais ricos foram os maiores ganhadores na divisão da renda e o Brasil bate um recorde na progressão da desigualdade
Nos últimos sete anos, a renda média dos brasileiros aumentou, segundo constata estudo da Fundação Getúlio Vargas feito a partir de microdados da Pesquisa Nacional por Amostra por Domicílios, do IBGE. Mas isso não significa que a vida da população melhorou. Pelo contrário, como diminuíram os números que indicam bem-estar social, assim como piorou o índice de Gini, marcador de equidade, a conclusão é que jamais o Brasil passou por um período tão continuado de aumento da desigualdade, com ricos cada vez mais ricos.
O trabalho analisa índices recolhidos entre o último trimestre de 2014 e o primeiro trimestre de 2019. A curva obtida nessa comparação, a despeito de leves oscilações, indica forte tendência de mergulho do país rumo a um buraco que não será superado sem uma mobilização específica. Segundo apontou nas conclusões do estudo o pesquisador Marcelo Neri, da FGV, a metade mais pobre da população teve evolução de renda negativa de 17,1% no período. Os 40% dos brasileiros que compõem a chamada classe média perderam 10% de sua renda. Os 10% da classe média alta e os ricos ganharam mais 2,55%. Ao separar do bolo aquele 1% que ocupa o topo da pirâmide, constata-se que ficaram 10,11% nesse período.
Em janeiro de 2018, estudo realizado pelo Instituto de Pesquisas Aplicadas e publicado pelo Centro Internacional de Políticas para o Crescimento Inclusivo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (IPC-IG/PNUD) já apontava que o Brasil, entre 29 países analisado, ocupava o último posto nos critérios de concentração de renda. Aquele 1% concentrava então entre entre 22% e 23% do total da renda produzida no país. A notícia mais recente é de que esse cenário piorou.
Como o aspecto renda é apenas um dos componentes do cenário de desigualdade, a organização não governamental Oxfam Brasil criou, para o processo eleitoral de 2018, um decálogo de ações a serem comparadas com as plataformas dos candidatos em todos os níveis. O trabalho listou as seguintes ações:
– Enfrentar o racismo
– Equilibrar o sistema tributário
– Promover a oferta de trabalho
– Revogar a emenda constitucional de teto de gastos
– Enfrentar a discriminação contra as mulheres
– Tributar lucros e dividendos
– Combater a concentração de terras
– Investir em saúde e educação
– Melhorar a qualidade do gasto público
– Combater a corrupção
Mesmo quem venha a discordar de alguns desses itens, considerando o risco de um comprometimento econômico que afetaria ricos e pobres, há de concordar que a maioria dessas medidas integra a lista de prioridades brasileiras, independentemente de campanhas políticas. A elas ainda se pode acrescentar a necessidade de acompanhar o trabalho legislativo, as ações do executivo e até as sentenças judiciais para mapeamento de propostas, projetos, leis e decisões que, às vezes embaladas em ótimas intenções, significam aumento de custos desigual, subsídios aos mais ricos e comprometimento no rumo da equidade.
Já se comprovou que as soluções não virão por decreto nem por ação divina. Mobilização social é a único possibilidade. Novas análises neste espaço demonstrarão, brevemente, a viabilidade desse caminho.