“Nós”, “eles”, ovos e a terceirização da soberania

O patriotismo que pretende extinguir a pátria
Sim. Youval Noah Harari e seu livro “Sapiens: uma breve história da humanidade” são criticados pelo reducionismo, pela superficialidade, pelo determinismo, pelas generalizações e pelo viés filosófico pessoal. Também cabe dizer que ignoram teorias inconvenientes para a interpretação particular da evolução humana e que, passados 15 anos da primeira publicação da obra, muita água passou pela ponte da antropologia e as contestações ao trabalho se acumulam em nível equivalente a sua importância.
Mas não se faz divulgação científica sem quebrar muitos ovos nem se pode jogar no lixo esforços de uma década de reflexão e pesquisa como se nenhum suco se pudesse aproveitar ao espremer o que Harari consolidou no livro. Por isso, uma tentativa de extensão de um aspecto de suas observações tem todo sentido. Quebram-se mais alguns ovos, claro, mas pelo menos fica à disposição dos críticos mais uma vidraça para sua diversão.
Às páginas tantas de “Sapiens”, o autor afirma: “Os sapiens instintivamente dividem a humanidade em dois: ‘nós’ e ‘eles’. ‘Nós’ são as pessoas que compartilham a mesma língua, a mesma religião e os mesmos costumes. São responsáveis uns pelos outros, mas não por ‘eles’. Sempre são diferentes deles, e não devem nada a eles. Não querem ver nenhum deles em seu território, e não se importam com o que acontece no território deles”. Ele mesmo reduz a contundência da afirmação logo a seguir, diminuindo a amplitude e as consequências de uma leitura tão simples, mas não há na Terra quem não experimente com alguma frequência essa sensação de que o outro, o diferente, é um adversário a ser ignorado ou, pior, combatido, antes de ser compreendido.
Harari usa o princípio para analisar os fundamentos das formações nacionais. Porém, nada impede que seja estendido para a compreensão da construção de blocos ideológicos e, neste ponto, ele se torna útil para pensar sobre um aspecto no mínimo pitoresco do que acontece hoje no Brasil polarizado: justamente a quebra de fundamentos territoriais e linguísticos na composição da imagem de que somos “nós” e quem são “eles”. Mais curiosa ainda é a conclusão a tirar daí — a de que, pelo alinhamento com princípios e modelos exógenos, uma parte considerável da elite política, em vez de enfrentar tentativas de colonização, busca ansiosamente por ela.
Se endofobia, eurocentrismo e estrangeirismo sempre tiveram por aqui militantes aguerridos, a grande novidade é que, nos novos tempos, essas posturas se apresentam sob um manto de patriotismo e não se voltam mais para a dicotomia de possibilidades figuradas pelas hipóteses, de um lado, de abandonar o país e viver num lugar considerado melhor e, de outro, de internalizar um modelo estrangeiro de organização política que parece mais eficiente e efetivo do que os que já foram historicamente tentados ou poderiam ser localmente desenvolvidos. Patriota, resumindo, seria o que pretende deixar de ter uma pátria.
Dando um nome ao boi, a questão envolve o fenômeno do que aqui se chama de bolsonarismo (mas pode ser também tratado como conservadorismo pró-terceirização da soberania) e sua visão, digamos, contraditoriamente autocolonialista, que, muito além do que se chama de entreguismo, cujo fundamento é econômico, pretende dar ao movimento conservador supranacional, hoje circunstancialmente liderado por Trump mas com potencial para sobreviver depois dele, as próprias rédeas decisórias.
Na perspectiva desse movimento de tecno-subserviência, juntam-se conceitos diversos como o complexo de vira-lata, que faria um povo menos competente incapaz de se governar com eficiência, o buro-entrenguismo, que livraria o gerente local de tomar decisões sofisticadas demais para sua capacidade instalada, e a negação compulsória da nacionalidade pela ambição de tornar-se outro, mais feliz, mais organizado, mais rico, mais querido e mais realizado — numa materialização em nível político da síndrome de comparação diagnosticada nas redes sociais, nas quais esse “outro” é bem-sucedido e invejado pelo que revela nos seus compartilhamentos.
A consequência mais interessante de tudo isso é a transmutação da visão histórica de “nós” e “eles” como elemento de consolidação nacional para um novo figurino confuso em que “nós” passam a ser os querem identificar-se com os que antes eram “eles” lá fora. E os novos “eles”, para esses grupos, são os que continuam achando que “eles” são aqueles lá fora e “nós” somos os que estamos aqui dentro. Simplificando muito: se antes se pretendia mudar para a Flórida em busca das condições que “eles” têm e “nós” não, o que se pretende agora é ampliar o conceito de gestão de Porto Rico para tornar-se um deles.
A falha está numa aposta que desconsidera o óbvio: para “eles”, mesmo com todo esse esforço de, podemos dizer, desassimilação nacional, os pregadores da nova ordem continuarão sendo “eles”, quando vistos por “eles”.
Um adendo para confundir. Um adepto da tecno-subserviência entende facilmente o conceito de “nós” e “eles” quando aplicado em relação aos argentinos porque em geral tem preconceito em relação à população do país vizinho. Mas, se, na Argentina, os mileístas defendem os mesmo pontos de vista do conservadorismo pró-terceirização da soberania aqui instalado, como ficariam as coisas no caso de prevalecer hegemonicamente em ambos os países essa visão? A quem ele iria discriminar se o conceito de “nós” passasse a abranger tanto brasileiros quanto argentinos?


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