Câmera, polígrafo e focinheira neles

Conseguiram! Agora todos deverão provar que são honestos
A guerra sem fim iniciada no Supremo Tribunal Federal parece ter apenas uma solução: câmera corporal em todos os ministros — com áudio –, mas não só quando estão de toga. Como um juiz continua juiz na hora de dormir, às refeições e também quando pratica atividades íntimas, o equipamento precisará ser implantado na testa de suas excelências.
Para garantir, sugere-se que usem também tornozeleira eletrônica, com localização acessível pelo Google Maps para qualquer cidadão, em sistema 24×7, relógio equipado com polígrafo, também gerando gráficos permanentes disponíveis em aplicativos de celular franqueados ao povo, e, indispensavelmente, coleira, guia e focinheira, já que representam, como se percebe, um grande perigo para a população.
Adicionalmente, seria o caso de realizar chamada oral sobre tópicos da Constituição, em sessões públicas, com perguntas enviadas pela audiência, e — para extrema garantia da ordem — providenciar escolta especial para magistrados, algemados às costas. E nos pés.
Não há, afinal, precedente para o tipo de tragédia encenada pelos encapados do STF, num cenário em que, curiosamente, não se podem estabelecer exceções, sob risco de cometer injustiças. Se, até agora, há algum(a) sobre o qual ainda não apareceu nenhuma irregularidade, tudo parece ser uma questão de tempo ou de qualidade das investigações.
Mas, mais do que no Supremo, a conspiração contra a Constituição e a cidadania revela-se espalhada pelo sistema pelo sistema judiciário inteiro, aí incluída a Procuradoria Geral da República, com braço esplêndido abraçando também a Polícia Federal. Como Executivo e Legislativo já se revelaram, muito antes, também historicamente consorciados em operações lesa-pátria ou irmanados na tentativa de acobertar escândalos, a solução é exigir que essas ferramentas — câmeras, polígrafos, tornozeleiras e acessórios — sejam disseminados entre todos os que ocupam algum cargo público, seja eletivo, seja por concurso, contrato ou, como é mais comum, boquinha.
Se parece radical, é porque a proposta é mesmo desse naipe. Porque se chegou a um ponto em que não basta mais a indignação cívica nem mesmo a rebelião civil. O quadro avançou de tal maneira que cabe adotar para qualquer autoridade — aí incluídas as menores, da vereança, do tabelionato e da recepção das repartições públicas — o mesmo procedimento que qualquer banco estabelece para conceder empréstimo, cartão de crédito ou senha de aplicativo: a prova de honestidade.
No banco, é preciso entregar contracheque, prova de endereço e, conforme o caso, até declaração de renda, além de passar chave, celular e cortador de unha pela janelinha do detector de metais. Pois no serviço público deveria valer o mesmo: se alguém quer emprego pago pelos impostos do cidadão, tem de provar a honestidade, viver num aquário transparente do ponto de vista financeiro e da vida privada.
Almoçou em missão de serviço, pega nota e publica em rede social — com descrição do menu. Deu um telefonema, mostra a gravação. Foi ao médico, atestado. Foi jogar tênis, resultado, nome do parceiro, duração e local da partida. Cortou o cabelo, junta as pontas, faz uma foto e bota no Facebook.
Nada disso vai restaurar a confiança da população, mas pelo menos vai dar ao homens públicos uma trabalheira desgraçada.


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