Politização e negacionismo agravam a pandemia

Politização e negacionismo agravam a pandemia

Em campanha para 2022, o bolsonarismo tenta reduzir a gravidade da Covid-19 ignorando a desigualdade no Brasil e tira o PT para dançar no seu ritmo


Diante da impermeabilidade do presidente Jair Bolsonaro à gravidade da pandemia da Covid-19, a parcela minguante de seus apoiadores resolveu, nas últimas semanas, definir o coronavírus como um sortilégio petista encomendado na China e espalhado pelo mundo com a única função de derrotar o mitológico mitômano instalado no Palácio do Planalto.

A estratégia, como ficou claro quando o presidente disse que sairá do governo apenas em 2027, busca a politização do momento de tragédia de saúde, para obviamente manter o debate no nível dicotômico que interessa a Bolsonaro. Depois de dar o máximo de combustível possível a seu impeachment, interessa a ele manter viva a sombra do petismo que o ajudou a se eleger.

Há petistas que, por incrível que pareça, não só aceitaram o jogo e entraram na dança como mostram acreditar que o vírus está no seu time, principalmente quando se sentem credenciados a pegar carona nas críticas ao governo como se não tivessem sido os patrocinadores do sentimento que levou à viabilidade política de Bolsonaro.

Nos últimos dias, Lula, José Dirceu e Gleisi Hoffmann deram-se autorização para apontar problemas mais do que conhecidos na administração Bolsonaro, ameaçando disputar a bandeira de liderança da oposição – um movimento na direção de uma polarização falsa e inoportuna. O impeachment, se vier a acontecer, só será viável conduzido por uma frente que possivelmente não dará protagonismo a esses personagens.

Hoje, a verdadeira divisão nacional coloca de um lado a maioria que tem bom senso e busca salvar o país de uma tragédia sanitária e do outro os celerados que só enxergam as campanhas presidenciais para 2022. Se há assento aí para o petismo, ele fica ao lado das cadeiras bolsonaristas e se avizinha dos arrulhos eleitorais do governador João Dória.

No Amazonas, a disseminação do vírus pode ser a mais rápida do mundo

A honestidade do envolvimento desses quadros no combate à pandemia tem o fervor revelado pela massa manobrada que deu agora para comparar o avanço da Covid-19 no Brasil com o registrado em outros países, ignorando não só a geografia e a realidade econômica, mas também a aritmética.

Na balada mais recente do negacionismo, estatísticas que contam o total de mortes por milhão de habitantes são divulgadas como prova de que a gravidade pandêmica no Brasil está longe do que se viu na Bégilca, na Itália e na Espanha, por exemplo, e que a mídia nacional – ao lado da mundial também – classifica como trágico o cenário apenas aqui no país e nos EUA.

Comparam-se, com dados atuais, de ontem, dia 11 de maio, os 75 mortos por 100 mil habitantes da Bélgica (o quadro mais terrível em qualquer país) ou 66 da Espanha e 50 da Itália com os 5,5 do Brasil como se fosse simples assim a definição da severidade da epidemia em cada país.

Este quadro ajuda a entender a realidade:
https://oraessa.com.br/wp-content/uploads/2020/05/Velocidade-de-disseminação-da-doença.jpg

A conta que precisa ser feita, no entanto, deve levar em consideração a extensão territorial de cada país, a distribuição da população, o tempo decorrido desde o início dos contágios, a velocidade de disseminação do vírus, a estrutura de saúde disponível e, principalmente, a competência das autoridades no acompanhamento e registro de casos.

Feito isso, o cenário muda completamente. A capital paulista, por exemplo, contabiliza 18 mortos por 100 mil habitantes e evolução do número de óbitos na casa dos 4% ao dia (média da última semana). Assim, infelizmente, tem risco de chegar a um quadro igual ao italiano em apenas três semanas.

Na Itália, a média diária de óbitos aumenta menos de 1% há duas semanas. Note-se, por sinal, que o primeiro caso de Covid-19 surgiu na Itália dia 31 de janeiro, enquanto em São Paulo o primeiro diagnóstico foi divulgado 26 dias depois. O bairro da Brasilândia, na zona Norte da capital paulista, já tem mais de 40 mortos pelo coronavírus por 100 mil habitantes e só começou a apresentar casos no começo de março.

Isso deixa evidente o quanto a questão da desigualdade brasileira é capaz de influir na evolução da pandemia. Enquanto o vírus sequer foi detectado em muitas localidades do Sul do Brasil, em que as carências sociais são menos evidentes, o Amazonas, mesmo tendo menos de 4 milhões de habitantes, já alcança a indecorosa marca de 26 mortos por 100 mil pessoas.

Em menos de 20 dias o maior estado brasileiro foi de 200 a 1.036 mortos, numa aceleração que, tendo como referência o total da população, disputa o desonroso título de maior velocidade de disseminação da doença em todo o mundo. Vão na mesma direção os números do Pará e do Ceará.

Se há uma conclusão a tirar desse panorama, ela indica que não há espaço, seja para o PT, para Dória, para o governador Wilson Wietzel ou qualquer outro político interessado em começar agora a campanha presidencial, embarcando na proposta imoral de politização encenada por Bolsonaro.
Quanto mais a epidemia avançar, lamentavelmente, mais as camisas partidárias terão de ser escondidas no fundo das gavetas.

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