A insana vida brasileira nestes nossos tempos da cólera

A insana vida brasileira nestes nossos tempos da cólera

Numa época em que o afeto pode matar, o vírus sociopático da ira também precisa ser isolado. A insanidade administrativa de Bolsonaro é sintoma de uma infecção

Há controvérsias, mas a neurologia, a psiquiatria e a psicologia dispõem de muitas definições capazes de abarcar o comportamento do presidente Jair Bolsonaro, ainda que nenhuma dê conta disso completamente.

Nota-se que o ex-capitão, quando animado por uma plateia favorável, é capaz de rechear seu discurso com bravatas autoafirmativas, exemplo percebido quando fez insinuações sobre suposto apoio das Forças Armadas à sua interpretação de deter poder para abrir ou fechar a economia a despeito dos riscos de maior disseminação da pandemia da Covid-19.

(Você pode ler enquanto ouve o hino composto por Aldir Blanc e Carlos Lyra, aplicável a muitos políticos brasileiros. Chama-se “Ária do Calvoso”)

Mais do que isso, tem acessos de valentia diante de adversários minoritários, na sua interpretação inferiores, como aconteceu mais de uma vez, sob manifestações de apoio dos fãs, ao esbravejar diante do grupo de repórteres que cobre suas idas e vindas entre o Alvorada e o Planalto. Ataca, assim, no seu imaginário, a mídia que o desvenda a cada dia.

Os seus arroubos de destemor podem ser ainda maiores em situações privadas, como se vê na tal reunião ministerial do dia 22 de abril, cujo vídeo vexaminoso foi liberado hoje – para alívio de muitos com cortes no que poderia afetar as relações internacionais. A insanidade espasmódica e compartilhada com os comparsas administrativos é o retrato completo de uma patologia mental pegadiça.
VEJA AQUI O VÍDEO LIBERADO PELO STF(direto do site da Veja.com)
https://www.youtube.com/watch?v=nfgv7DLdCqA
Mas todas essas mostras de desassombro, como se sabe, são seguidas de súbita murchidão tão logo a elas se oponham forças que o intimidam.

Lembrem-se, como casos marcantes, suas frequentes renúncias ao próprio discurso, sobre assuntos como a Covid-19, ameaças de confronto com o Legislativo e o Judiciário e até trocas de ministros e secretários, que mantêm calor intenso no seu governo, a despeito da baixa produção de energia. Sempre depois de reações fortes de outras autoridades.

Foi assim também quando, intempestivamente, decidiu atravessar a Praça dos Três Poderes e invadir o STF escoltado por constrangidos empresários, para exibir sua força executiva, logo recalibrada em “visita de cortesia”, diante da benevolente recepção de Dias Toffolli.

Do mesmo modo, as diatribes anteriores lançadas contra prefeitos e governadores viraram miados de conformidade na recente reunião virtual em que Bolsonaro acabou trocando a beligerância por promessas de comunhão e paz.

Nem mesmo um psiquiatra tem autorização para diagnósticos a distância, mas nada impede buscar entender as semelhanças entre ações que custam tão caro ao país e as descrições disponíveis na literatura da área.

Trata-se, como se vê pela coleção de retrocessos, de um conjunto de atitudes que faria recordar o comportamento ciclotímico – CID 10 F34, transtorno bipolar leve –, se não houvesse agravantes observadas na conduta do, digamos, paciente ao longo do tempo.

O cardápio a percorrer, neste caso, tem outras opções.

A sociopatia, perturbação da personalidade antissocial, DSM V 301-7, é uma dessas possibilidades. Está associada ao desrespeito de direitos alheios, entre eles, por exemplo, em casos graves, os chamados direitos humanos.

O conceito serviria, também, por extensão, para a violação intencional de condições que afetam o bem-estar alheio, como a segurança e a preservação do meio ambiente, além da discriminação de gênero, racial ou econômica.

A psicopatia, CID 10 F60, também tem, por seu lado, coincidências definidoras interessantes. Serve para descrever o transtorno que une o comportamento antissocial à falta de empatia e à ausência de remorso, com incapacidade de autocontrole e atitude de dominância.

No limite extremo, chega-se à controversa epilepsia condutopática, um conceito mais forense do que hospitalar invocado por alguns especialistas como explicação para crimes bárbaros cometidos por psicopatas.

O psiquiatra brasileiro Guido Palomba é um dos adeptos dessa corrente e sempre procura esclarecer que a periculosidade não é a situação comum dos epiléticos, mas existe, assim como acontecem episódios de violência por ação de esquizofrênicos e oligofrênicos.

Há quem entenda que, tratando-se dessa disfunção, a palavra epilepsia está mais associada ao colapso e descontrole que tomam conta do indivíduo numa crise do que à doença propriamente. Acontece, portanto, uma falência pulsante e completa do caráter durante um ataque, com consequências imprevisíveis e incontroláveis.

Os sinais emitidos pelo presidente nunca chegaram a esse ponto, mas, considerando a sua tendência definitiva para recaídas, é indispensável mantê-lo sob vigilância, com uma camisa-de-força ao alcance da mão. A democracia, por sorte, tem esse tipo de instrumento. E ele já foi usado antes no Brasil

O certo, quanto a todas as hipóteses, é que os desvios de comportamento não são exclusivamente inatos ou morfológicos. Decorrem sempre de alguma combinação de inclinação da personalidade ou decorrente de trauma com ambientes favoráveis ao desenvolvimento de problemas, alguns possivelmente relacionados ao próprio organismo.

A raiva – o ódio, a cólera – sempre será encontrada na raiz das perturbações, em associação com insegurança, medo, angústia, frustração, ciúme, hostilidade ou culpa, compondo a personalidade que só se satisfaz pela opressão ou, em sentido oposto, derrete-se na depressão.

O drama é que, socialmente, essa mazela também é contagiosa e, em certa medida, epidêmica.

O planeta, por uma coincidência traumática e única na história, vive um momento em que é preciso escamotear o amor. Relações de proximidade criam o risco de contaminação e de morte. Assim, enquanto a parte que tem a sensatez preservada busca a distância social, os portadores do vírus da destruição se expõem ao contágio.

É um fato que, antes da pandemia, já proliferavam, no Brasil e em vários outros países, os tais gabinetes de ódio, em soluços autoritários abastecidos pela parcela marginal socialmente doente. E também é fato que a negação se inclui entre os sentimentos combinantes da ira.

O tratamento existente para uma peste é o mesmo definido para a outra. É necessário isolar e manter em quarentena, hidratado e alimentado, o corpo infectado, até que supere sozinho a guerra deflagrada em seu organismo, ou em sua mente.

Muitos sobreviverão e estarão normais dentro de algum tempo porque ainda não tinham destruídas dentro de si as defesas que determinam solidariedade, paciência e compreensão. Alguns, como diz Bolsonaro, morrerão. E daí? Fazer o quê? Afogam-se na própria raiva. São os tempos da cólera.

0 0 votos
Classificação do artigo
Inscrever-se
Notificar de
guest
2 Comentários
mais recentes
mais antigos Mais votado
Luiz
Luiz
6 anos atrás

Osmar Roland Burchhardt, votei no Estimado Líder para me livrar do PT. Agora tenho que ver em quem vou votar para me livrar do Estimado Líder. Obviamente em ninguém da esquerda.

osmar roland burchhardt
osmar roland burchhardt
6 anos atrás

Está tudo nos conformes: Mussolini armou as Fasci di Combattimento (esquadras de combate) para atacar os seus opositores e teve sucesso:nasceu o fascismo! Hitler armou até os dentes a SA-SturmAbteilung de Ernst Röhm , sua tropa pessoal de proteção para tomar o poder (e mais tarde eliminou toda cupula da SA que estava lhe fazendo sombra).
Hugo Chaves armou sua milicia para se manter no poder.
Etc Etc.
Votei nesse cara mas era ele ou Lula.
A coisa vai de mal a pior.

2
0
Sua opinião é importante. Comente!x