Gesto de Bolsonaro ao falar de Queiroz merece atenção

Gesto de Bolsonaro ao falar de Queiroz merece atenção

Abatido, o presidente fez uma rara live solitária em que o uso do indicador e do polegar lembrou, por três vezes, um símbolo violento de sua campanha


Olhos congestionados, olheiras profundas, cabelo untuoso, pele descamada, gestos vacilantes e corpo adernado, dentro de um casaco quase incompatível com o clima brasiliense, o presidente Jair Bolsonaro fez a mais desanimada e solitária live de sua carreira na quinta-feira, dia 18 de junho, ao lado apenas de uma intérprete de libras.

Desanimada, é fato, mas assustadora para quem prestou atenção a alguns movimentos de sua mão esquerda, que passou a maior parte da transmissão escondida sob a mesa, surgindo três vezes para fazer o sinal que imita uma arma – apenas em momentos no quais Bolsonaro tratava da súbita prisão de Fabrício Queiroz, o assunto mais quente do dia.

Entre alarmantes acessos de tosse seca, em plena pandemia da covid-19, o ex-capitão celebrou sem grande apetite o plano safra – uma rara obrigação bem cumprida por seu governo –, e resmungou monotonamente contra a OMS, o STF, os governadores e o prefeitos.

Tratou ainda da medida provisória sobre mando de jogos de futebol, que parece ter assinado mais para espezinhar a TV Globo do que para dar solução sustentável aos pequenos clubes, e acariciou também os policiais militares ao explicar um trâmite burocrático.

Mas o principal ponto de seu pronunciamento, também feito em tom reclamante, foi apresentado logo no início da live, o que poupou quem esperava sua posição sobre esse assunto das irrelevâncias posteriores.

Os minutos iniciais do vídeo abaixo merecem ser analisados com cuidado.

Abrindo a transmissão, Jair Bolsonaro disse que não é advogado de Queiroz, mas fez questão de recordar que o amigo antigo de pescarias, empréstimos e gabinetes não era foragido, como erradamente registraram alguns veículos de comunicação.

Disse ainda que Atibaia, a 75 quilômetros da capital paulista, foi escolhida como moradia por Queiroz porque é perto do hospital em que ele faz tratamento de câncer – um conhecimento curioso para quem diz não ter tido contato recente com o ex-auxiliar e que não sabia de seu paradeiro.

O conteúdo do que disse, porém, é bem menos importante do que os gestos que fez enquanto comentava a prisão de Fabrício Queiroz, considerado um homem-bomba capaz de explodir o clã Bolsonaro.

O ex-assessor pode não apenas comprometer o senador Flávio Bolsonaro como participante de seus esquemas financeiros envolvendo funcionários da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, mas também criar problemas graves para toda a família presidencial, caso conte o que pode saber sobre temas como o assassinato da vereadora Marielle Franco e a vida, obra e morte do miliciano Adriano da Nóbrega.

Logo aos 43 segundos do vídeo que pode ser visto na íntegra nesta página, o presidente faz o gesto pela primeira vez, escolhendo polegar e indicador da mão esquerda para enumerar duas informações que na verdade são apenas uma: que o parceiro Queiroz não era foragido e que não havia mandado anterior para sua prisão.

A mesma enumeração, desta vez com o gesto imitando arma apontando para a câmera, é feita a 1m20″ do vídeo. Mas é na segunda ocasião em que sua mão esquerda recorda um revólver que o sinal parece mais vigoroso e evidente, como se devesse ser lido por alguém.

Este momento pode ser visto a 1m04″ da transmissão e corresponde ao ponto em que Bolsonaro diz a frase “que a justiça siga o seu caminho”. Confira a reprodução a seguir.

Como é sabido por qualquer um que tenha visto pelo menos um filme fidedigno ao comportamento de grupos mafiosos, execuções de possíveis delatores nem sempre são ordenadas diretamente pelos chefões.

Uma das qualidades que se esperam de gangsteres é que tenham a capacidade de ler sinais emitidos pelos líderes da bandidagem e cumpram as ordens telegrafadas sem pedir confirmação.

É quase absurdo imaginar que o presidente possa ter enviado ordens dessa natureza a quem quer que seja usando sua live em rede social.

Só que sua gesticulação no dia 18 não pode deixar de ser notada – e seria bastante prudente manter o eventual delator Queiroz distante de qualquer um que possa ter lido a movimentação da mão esquerda do presidente como algum sinal de libras.

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Adalgiso
Adalgiso
5 anos atrás

ora essa

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