O voto contra

O voto contra

O cronista mineiro Humberto Werneck defende e já escreveu sobre as vantagens do voto contra — segundo ele um adicional ao qual eleitor deveria ter direito, depois de votar no seu candidato preferido, para deixar claro o nome daquele que não gostaria de ver vencendo o pleito em nenhuma hipótese.
Como ainda não se estabeleceu essa possibilidade de dois votos — um a favor e um contra —, os brasileiros podem caminhar para a eleição presidencial de 2018 tendo de exercer apenas a segunda opção, a julgar pelo empenho dos candidatos, neste meado de campanha, em eleger a si mesmos como a melhor possibilidade para evitar a vitória de outro.
Bolsonaro, como já era de se esperar, usa sua estropiada condição de vítima para, da cama hospitalar, apresentar-se como o único anti-Lula eficaz desta eleição.
O condomínio de esquerda reunido em torno de Fernando Haddad, por outro lado, apregoa a candidatura petista como a melhor arma contra ao “anticristo” da direita, comparado a Hitler em textos que circulam nas redes sociais.
Ciro Gomes vende a si mesmo como a alternativa de quem não quer Bolsonaro nem Haddad, enquanto Alckmin trabalha com a fé e a esperança de levar os votos que sejam antirradicais de direita, contrários também ao PT e, de quebra, tenham ainda o sentido de um “não” do chamado mercado aos riscos representados pelo impetuoso candidato do PDT.
E assim se esvai, aos poucos, mais uma campanha em que quase nada importam as discussões sérias sobre projetos, planos, recursos, recuperação econômica, reabertura de empregos, ajustes na educação, consertos na saúde, reparos na infraestrutura, reengenharia na segurança, etc.
Pior ainda: no clima do “eu sou santo e ele é o demônio” que toma partidários das duas candidaturas postas neste momento pelas pesquisas como as mais cotadas para chegar ao segundo turno, o que mais se fala é que a democracia está em risco.
Interpretam os petistas que Bolsonaro ameaça tentar um golpe militar caso seja derrotado por Haddad, baseados aliás em afirmações realmente preocupantes do ex-capitão que um dia sonhou explodir o reservatório Guandu e que, portanto, tem credibilidade nesse quesito.
Afirmam, do outro lado, os defensores do candidato do PSL que Haddad indultaria Lula nos primeiros momentos de seu governo e mandaria para o lixo tudo o que a Lava Jato realizou, de bom e de mau, desde que o juiz Moro começou sua caçada aos políticos sustentado, principalmente, nas delações de empresários que amamentaram corruptos ao longo dos últimos governos.
Assim como deram com os burros n’água os que um dia acreditaram ser impossível a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, pode queimar a língua e até precisar do passaporte o analista que desprezar essas alternativas — golpe contra o governo, de um lado, ou contra a Lava Jato, de outro —, uma vez que temos muito mais prática, nós, os brasileiros, em produzir o impensável.
Mas não é possível ficar só assistindo a confusão, sob pena de pôr ainda mais lenha nessa fogueira. Então, optando por uma análise fria dos fatos e sobretudo do cenário, há algumas tendências, quase certezas, a se apontar:
1 – Bolsonaro não será eleito porque sua rejeição é imensa e sua exposição maior ao eleitorado, num eventual segundo turno, com debates e mais tempo de televisão, tende a torná-lo ainda menos palatável à maioria, por evidente falta de traquejo político, indiscutível carência de carisma e absoluto despreparo emocional.
2 – Bolsonaro não tem cacife para tramar um golpe militar porque uma parte considerável dos comandantes das Forças Armadas o considera um palhaço que expõe os militares ao ridículo com suas rasas afirmações sobre qualquer tema sério. O mais provável, se tentar articular qualquer ação do tipo, é que o ex-capitão seja gravado e receba ordem de prisão logo às primeiras investidas.
3 – Haddad, caso eleito, não indultará Lula no início de seu governo porque o ex-presidente sabe que precisa ficar preso até uma improvável absolvição para manter-se politicamente vivo. O indulto é opção para o final de 2019 ou até além disso.
4 – Ciro, que pode tornar-se a alternativa dos tucanos que levantam voo da campanha alckmista e assim ainda vencer a eleição, daria ao mercado menos preocupações do que deu Lula no seu primeiro governo, já que precisará costurar uma base de apoio no Congresso que vá além do seu PDT, do PT e de ramos da esquerda que tende a atrair. Tasso Jereissatti está pronto a dar-lhe sua parte do PSDB.
Ou seja, ganharíamos bem mais especulando menos em torno dos riscos democráticos.
Neste espaço, não se volta a este assunto até o fim da eleição — ou, em edição extraordinária, envergonhadamente, no momento em que se provar estas afirmações foram um tiro n’água.

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Walter Bergues
Walter Bergues
5 anos atrás

É interessante ver como as pseudodemocracias dão origem a pensamentos menos democráticos, assim como as ditaduras nos convertem em ferventes defensores da democracia.
As guerras nos revelam pacifistas, excessos de liberdade (sempre as dos outros) nos fazem reclamar mais conservadorismo.
Perante o socialismo económico nos revelamos liberais e defensores de Adam Smith para, posteriormente quando o mercado desregulado nos deixa desprotegidos, querermos que o Estado nos ajude.
E não é só por estes lares… A globalização (leia-se livre comércio, redução de tarifas, livre fluxo de capitais, desregulação dos mercados, etc., etc.), cujas regras foram ditadas por Washington chegou no ponto em que Donald Trump vira presidente dos Estados Unidos com um forte discurso antiglobalização (alguém pode acreditar que México impôs condições aos EUA durante a negociação do Nafta?)..
E assim por diante…
Neste ponto devo esclarecer que, pela minha condição de estrangeiro, há duas coisas que não posso fazer: 1) Votar no Brasil; 2) Escrever sem erros….

Andre Fontenelle
Andre Fontenelle
5 anos atrás

Comentário republicado. Data original: 19/09/2018.
Parabéns pelo texto e pelo blog, Marcos. Discordo apenas do trecho que diz “E assim se esvai, aos poucos, mais uma campanha em que quase nada importam as discussões sérias sobre projetos, planos, recursos, recuperação econômica, reabertura de empregos, ajustes na educação, consertos na saúde, reparos na infraestrutura, reengenharia na segurança, etc.”
Tudo isso é inegavelmente importante. Mas o que seria uma campanha com “discussões sérias”? A quem cabe julgar a seriedade da discussão? Ela não ocorre, já, nos quatro anos entre uma e outra campanha, e a eleição não seria só uma cristalização, em torno de dois ou três nomes, de distintos projetos para o país?
Acho, em suma, que é uma utopia imaginar uma campanha “ideal”, em torno de ideias, pois a eleição por natureza nos obriga a uma escolha quase
binária em um mundo complexo.

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