Dia 29 de outubro

Se nenhuma hecatombe mudar o cenário, o ex-capitão Jair Bolsonaro vai perder a eleição presidencial no segundo turno para uma coalizão que incluirá os candidatos Guilherme Boulos, Marina Silva, Ciro Gomes e Fernando Haddad, sendo este, com imensa probabilidade, o presidente eleito.
Uma parte do PSDB, mineira e de alguns outros estados, terá caminhado com o deputado para a derrota, assim como um filão considerável do MDB e muitos partidos nanicos.
Os tucanos-açu (FHC e Alckmin, entre eles) terão se acomodado num muro de lamentações e de denúncias contra o radicalismo que estimularam até a véspera da campanha.
Aécio Neves será mirim, se ainda for tucano. Tasso Jereissati, a exceção, poderá estar no palanque do PT.
Enquanto a mídia estiver pregando a Haddad a moderação necessária a quem deve ter consciência de que só terá sido eleito por ostentar procuração de Lula e por ter enfrentado um fantasma fascista, uma outra preocupação estará não só na cabeça dos vencedores, mas do país inteiro.
E não custa pensar sobre a questão desde já.
O que se deverá fazer quanto ao eleitorado que, movido basicamente pelo ódio, terá ido com Bolsonaro até a praia da derrota?
Pelas pesquisas que simulam o segundo turno, mais de 35% dos eleitores brasileiros naufragarão nesse barco.
50 milhões de pessoas terão a frustração como grande resultado eleitoral, depois de uma campanha que estimulou a desconfiança de fraude, disseminou supostas virtudes da violência, explorou o machismo, elogiou a tortura, semeou a discriminação e pregou nitidamente contra a democracia.
Como reconquistar essa significativa parcela da nação para os valores da liberdade, do respeito, da igualdade entre gêneros, no meio de tantos outros preconceitos propagandeados ao longo da disputa?
Encontrar a resposta para essa questão talvez seja uma prioridade ainda maior do que compor um governo ou organizar uma oposição sensata, tanto para vencedores quanto para tucanos empoleirados no muro do “não me envolvo”.
Uma das mais importantes informações reveladas pela campanha que toma o rumo final é que há uma quantidade enorme de gente no Brasil disposta a seguir os mesmos ideários ultraconservadores e discriminatórios que vêm criando riscos para a organização democrática na Europa e nos Estados Unidos.
A tentação autoritária é uma sombra permanente de nosso processo eleitoral.
Sempre haverá quem acredite apaixonadamente na ideia de uma boa ditadura. Mas nunca isso foi tão longe.
Bolsonaro é um candidato curto e raso do ponto de vista intelectual, carismático com uma ostra e dono de um discurso mequetrefe combinado com uma postura mal-ajambrada.
Mas foi capaz de arrebanhar essa multidão.
Não é difícil prever, então, o quanto pode ter sucesso junto a essa massa desvalida de ambições democráticas alguém mais capacitado, de boa lábia, com recursos oratórios e figura sedutora.
Muito se terá de fazer no sentido de entender as carências desse eleitorado cego às necessidades alheias para evitar que ele continue crescendo e venha ser cooptado pela figura de um troglodita refinado, digamos.
E só duas coisas se sabem sobre isso de antemão: 1- isolar essa população funcionará como adubo para seu crescimento; e 2- acreditar que a onda fascista vai se desfazer naturalmente é o mesmo alimentar o monstro para tentar matá-lo por excesso de peso.


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