O que acontece no STF quando ninguém está olhando

São informações públicas as que dão conta de que: a) o ministro Gilmar Mendes tem um instituto que possui uma escola e realiza eventos no exterior com patrocínio de empresas com interesses em causas julgadas no STF; b) vários dos magistrados têm parentes que possuem bancas privadas de advocacia e advogam em causas que transitam no tribunal; c) a viagem do ministro Dias Toffoli de carona num jatinho privado para ver um jogo de futebol, com um advogado empenhado em processos que tramitam na corte não foi uma exceção (houve um, aliás, que morreu numa carona desse tipo); d) várias participações de integrantes da corte em eventos são remuneradas; e) são comuns as manifestações de magistrados com flagrantes de pendor partidário; e f) o alfabeto seria curto para quem tentasse listar todos os problemas éticos e de comprometimento da imparcialidade envolvendo o juízes supremos do país.
E é por essas circunstâncias que se pode dar mais crédito a jornalistas que informam sobre novas violações de conduta por parte dos ministros, especialmente no caso das publicações que noticiaram terem ocorrido telefonemas e reuniões do ministro Alexandre de Moras com o presidente do Banco Central nas quais o magistrado procurou informar-se sobrea situação das investigações envolvendo o Banco Master. As apurações basearam-se em fontes anônimas, mas respeitaram os princípios dos manuais de jornalismo ao ter confirmação de outras pessoas antes da publicação. Vale ressaltar que o jornalista Malu Gaspar foi também a autora de reportagem que revelou como a esposa de Moraes, advogada, tem um contrato milionário e absolutamente inexplicável com o Banco Master.
Ou seja, considerando a imagem pública da instituição, sobram motivos para se suspeitar que no escurinho do STF, nas salas fechadas, atitudes pouco republicanas são regulares e comprometem não apenas muitas das causas que tramitam na casa, mas também conspurcam a própria democracia. Na mais alta corte da nação, o que deveria prevalecer é a ética, a transparência e o compromisso com a Constituição — coisas que não estão nem minimamente relacionadas aos itens listados no início deste texto.
Há muita gente argumentando que o ministro Moraes não tem como se defender de informações anônimas, que não teria como provar inocência — o que a própria lei não defende —, e nada tem a fazer a não ser divulgar uma nota, como fez, declarando que foi outra a razão dos contatos com o presidente do BC. Essa é uma verdade parcial, já que, por um lado, a comprovação de uma irregularidade cabe mesmo a quem acusa, e não a quem se defende No entanto, o fato de a esposa do ministro não ter falado nenhuma palavra sobre seu contrato com o Master (o que seria minimamente esperado para desanuviar o clima de suspeitas sobre o marido), aliado à inexistência de registros nas agendas oficiais sobre as reuniões entre o ministro e o presidente do BC (que normalmente tem lista de compromissos pública e atualizada) e complementado pelo vaivém de versões de notas explicativas de Moraes tende a aumentar o crédito da notícia, em vez de aliviar a suspeição que recai sobre ele.
Um bom gestor de crise teria aconselhado Moraes a seguir por outro caminho. Mas aqui não está em análise o que seria melhor para o ministro e sim o que seria melhor para o país — e, para o Brasil, o melhor seria que o magistrado e seus colegas não fizessem negócios nem mantivessem relações conflitantes com os interesses da Justiça. Vale uma aposta: essa história ainda não terminou e seus desdobramentos vão fazer o parece impossível — piorar a imagem do STF,