O que explicaria o fenômeno eleitoral de 2018

Faltando poucos dias para a decisão do segundo turno, o pleito parece estar definido. O candidato Bolsonaro não comparecerá aos debates e ele, seu filho, ou qualquer pessoa no seu entorno continuarão com seus discursos fascistas, retrógrados, violentos e antidemocráticos…. E nada parece que irá impactar no resultado.
Como entender o que está acontecendo?
Seria o Brasil, que deu 22 milhões de votos para Marina Silva em 2014, um país comprometido com o desenvolvimento sustentável?
Será o Brasil, que deu 49 milhões de votos para o ex-capitão no primeiro turno, um país fascista?
Em 2018, Marina Silva, repetindo o mesmo discurso de 2014, sem nada que a desabonasse desde a última eleição, perdeu exatamente 95% dos votos!
O que aconteceu com os mais de 22 milhões de “ambientalistas” que antes a apoiavam? O Brasil de agora, está a favor do desmatamento e do aquecimento global?
Geraldo Alckmin, quatro vezes governador do mais rico estado do Brasil, decidiu candidatar-se a presidente representando um dos maiores partidos históricos e obteve 5 milhões de votos no primeiro turno desta última eleição.
Há quatro anos, elegera-se com 12 milhões de votos só em São Paulo!
Seu governo pode não ter sido uma maravilha, mas longe esteve de ser mal avaliado pela população do estado…. E, mesmo assim, consegue magros 5% dos votos em nível nacional !
Muita coisa pode mudar de uma eleição a outra.
Caso Bolsonaro se torne presidente, como reagiria diante de uma hipotética perda de 95% dos votos na eleição seguinte? Haveria, aliás, eleição seguinte?
Falo com pessoas, incluindo gente com excelente formação universitária, que declaram claramente e sem nenhum pudor o apoio a Bolsonaro. Digo “sem pudor” porque implicitamente aceitam o discurso fascista. Quando pergunto por quê, nunca obtenho resposta que não inclua o PT na (nula) argumentação.
É como se essa declamação de apoio firme a Bolsonaro seja equivalente a portar uma crachá dizendo “Não me confunda! Eu não sou corrupto”, uma espécie de passaporte que só os puros de corpo e alma poderiam ostentar.
Isso parece ser o mais importante: “Não me importo com o que o candidato está dizendo. Eu só quero que você saiba que não voto no PT porque não sou corrupto”.
Muitos dos eleitores de Bolsonaro em São Paulo devem ser os mesmos que em 2006 fizeram de Paulo Maluf o deputado federal mais votado da história, até então. Deram a Maluf mais de 700,000 votos.
Naquele momento, as pessoas também declaravam publicamente seu apoio ao ex-prefeito, mas o faziam por meio de uma expressão que misturava resignação com reconhecimento de méritos: “Rouba mas faz”.
Era uma ode ao pragmatismo. Era a aceitação de que, se todos roubavam (dada a evidência de que a corrupção não é invenção recente), pelo menos Maluf fazia.
Na minha opinião, existem duas ligações diretas entre aquela eleição de Paulo Maluf e a provável vitória de Bolsonaro, agora:
1) O ex-capitão foi deputado do PP (agora Progressistas) durante 11 anos (2005-2016). Sim, do PP, o partido de Maluf, um dos partidos mais corruptos do país e um dos que mais teve congressistas investigados pela Lava Jato. Como esperar que esse ambiente tenha abrigado um paladino da honestidade, ou pelo menos da transparência, por longos 11 anos, encerrados há tão pouco tempo?
Lembrem-se, por sinal, que nas eleições para presidente em 2014 o PP apoiou a candidatura de Dilma, do PT!
O próprio Bolsonaro em entrevista (jornal Valor, 30/5/14) afirmou que o apoio do seu partido ao PT e à reeleição de Dilma era “uma tentativa de dar respaldo jurídico a políticos do partido em eventuais processos na justiça”. Respaldo jurídico para quem?
Para Paulo Maluf.
2) Certamente, se a sociedade brasileira tivesse sido, naquele momento, um pouco menos tolerante e menos resignada com a ideia de que a corrupção dos que “fazem” era melhor que a corrupção sem fazer, os desvios de recursos públicos não teriam crescido até os níveis atuais.
É fato que as sociedades admitem certa restrição às liberdades em prol de um ambiente mais seguro, como menor criminalidade ou com maior bem-estar. Mas esse trade-off tem um limite.
Quais os limites que a sociedade brasileira está disposta a aceitar? Não existe uma resposta antecipada. É pagar para ver.
Há meses que o exército está presente no Rio de Janeiro e a cidade continua violenta.
Faz já dois anos que o governo Temer é uma administração “pró-mercado”. Até abril deste ano Henrique Meirelles realizava uma segunda passagem pelo Ministério da Fazenda; Ilan Goldfjan está ainda no Banco Central; a reforma trabalhista já foi votada; promulgou-se a Emenda Constitucional do teto de gastos públicos…
E o país não cresce.
Faz dois anos que o PT não governa…
Li o programa de governo do PSL.
Se o executivo de uma empresa apresentasse esse programa como o sendo o seu business plan para os próximos quatro anos, os acionistas não aprovariam. Talvez nem permitissem a conclusão da apresentação. Ninguém entenderia esse programa como um plano. É um papelório recheado de clichês, de frases de efeito, sem lógica e contaminado por teorias sustentadas em falácias.
Mas muitas outras coisas relativas ao possível governo Bolsonaro são ditas muito claramente, como para que ninguém possa falar depois “nós não sabíamos”.
Hoje todos sabemos o que foi a Copa do Mundo 2014: além de uma cortina de fumaça para as frustrações nacionais, foi uma fonte inesgotável de corrupção. Se fosse possível voltar no tempo, talvez muitos participassem das manifestações anti-Copa e ao lado daqueles que protestavam na época (presumivelmente antipetistas, pois o partido dava plantão no governo).
E o que faria o ex-capitão se manifestações desse porte ocorressem contra o seu governo, tomando-se como referência a mesma reportagem antes citada do jornal Valor: “Ronaldo está certo, tem que enfiar porrada mesmo. É tudo marginal”?
Fica aqui uma descrição de um comportamento pessoal. A maioria das vezes em que votei, escrevi antes, numa folha em branco, íntima, pessoal, só para mim, os motivos pelos quais estava optando por tal ou qual candidato, as minhas expectativas e os motivos que outras pessoas me davam para não votar nelas.
Guardava esse papel numa gaveta para, passado algum tempo, recordar o que anotei. Se minhas expectativas não tivessem sido atendidas, pelo menos tinha ganho experiência para a próxima eleição.
Acho que é um bom exercício cívico.
Minha dúvida é se haverá uma próxima eleição.


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