Moraes e o STF se tornaram cabos eleitorais de Flávio Bolsonaro

Não foi por falta de aviso: a vocação imperial de Alexandre de Moraes, os negócios estranhos dele, de Lewandowski e de Toffoli, os seminários de Gilmar, a leniência de Fachin e a cumplicidade da turma toda refletem-se agora no quadro eleitoral
As pesquisas mais recentes mostram que Flávio Bolsonaro alcançou um empate técnico com Lula na disputa da Presidência da República. Exibem também o crescimento da desconfiança em relação ao STF e seus ministros. E, para quem quiser saber, uma coisa tem muita relação com a outra.
O governo Lula não é uma preciosidade, sabe-se bem. Tarcísio de Freitas, Ratinho Jr. e até Eduardo Leite teriam legitimidade para disputar com o presidente a próxima campanha e talvez pudessem vencê-lo, na medida em que há um nível de rejeição considerável agarrado ao presidente. Mas é Flávio Bolsonaro que as pesquisas indicam como candidato mais viável no chamado campo conservador.
Com sua insípida biografia de filho do ex-presidente e histórico de anodinia e brevidade de conteúdo, Flávio não vem sendo beneficiado por suas qualificações, mas apenas por carregar no sobrenome a marca do político condenado por confrontar a democracia e ter tentado um golpe de Estado. E o que explica essa súbita decolagem do candidato é a súbita descoberta, pelo Brasil inteiro, de que o Supremo Tribunal Federal não é a casa de vestais escondidas sob togas que parecia ser, mas sim um sindicato no qual alguns – espera-se que não todos – fazem negócios com máfias financeiras, enquanto outros – aí, sim, sabe-se que todos – conluiam-se para acobertar os alguns.
Como o presidiário Jair Bolsonaro se diz perseguido por juízes supremos, particularmente Alexandre de Moraes, desde os tempos em que o TSE provava a lisura das urnas eletrônicas, contra acusações de quem só queria tumultuar o processo, o ente senatorial de sua prole agora se beneficia das revelações que comprometem integrantes do STF. A matemática é simples: a cada ponto de desconfiança acrescentado ao desempenho dos magistrados soma-se outro nas pesquisas de intenção de voto para Flávio.
É esse o resultado líquido dos negócios estranhos de Moraes, Toffoli e Lewandowski com o banco Master e, em adendo, do comportamento da Corte ao emitir uma carta de referências para o dono do resort Tayaya ao mesmo tempo em que, muito a contragosto, abria mão de conduzir o inquérito referente a Vorcaro.
O bolsonarismo fez o possível para confundir a atuação dos ministros ao longo de seu julgamento com uma ação de milícia judiciária que visava favorecer ao PT. Por artes do próprio STF, consegue agora incutir no eleitorado essa ideia que, antes, não foi possível nem a golpes de marreta nem a golpe de Estado.
Aguarde-se o próximo episódio, no qual pode acontecer, por vias tortas, a maior desconstrução de um julgamento já vista no país, maior ainda do que aquela que desmantelou a operação Lava Jato e levou para o ralo as provas colecionadas ao longo do processo. Do mesmo modo que o inquérito conduzido pelo juiz estrela Sérgio Moro colecionou evidências de roubalheira, desconsideradas mais tarde pelos vícios de sua atuação rocambolesca, o maná colhido por Moraes para demonstrar o indiscutível atentado à democracia pode agora vazar pelo fundo do cesto de sua prepotência associada a um comportamento inaceitável para a condição que alcançou.


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