Diálogos

Entre as aspas, o travessão e o itálico
Garçom, traga por favor seis pares de aspas.
Aspas? Vai fazer citações? Quer também alguns marcadores de referência?
Marcadores de referência? O que é isso?
São aqueles numerinhos para chamar a nota do pé de página.
Não, não quero isso. Obrigado. Estou escrevendo diálogos.
Desculpe, senhor, mas com aspas! Tem certeza que precisa de aspas?
Claro que tenho. O diálogo é meu. Veja bem: eu sou cliente; você é garçom. Eu peço aspas e você me traz aspas. Simples assim.
Mas é que…
Mas é que o quê?
É que um diálogo em geral é uma conversa simples. Eu costumo chamar de conversa de negócios. Um fala um negócio; outro fala outro negócio. Aspas dão muita formalidade à situação. Elas têm um compromisso de literalidade que causa estranhamento e pode distanciar o leitor. Se me permite uma sugestão, acho que com alguns travessões o senhor resolve melhor o seu diálogo.
Caramba, que sina a minha. Um garçom metido a crítico literário…
Então, doutor, desculpe. Mas esse tipo de comentário já é um fluxo de consciência. Verbalizou, mas é fluxo de consciência. Se é esse o caso, é melhor usar itálico. O itálico demarca melhor a introspecção, tem impacto visual naturalmente relacionado à psique. Freud…
Olha, amigo, essa conversa está passando dos limites. Se você sabe tanto, por que está empregado como garçom?
É sorte, eu acho. Sorte e alergia a detergente. Lá na cozinha tem dois pós-doutores lavando pratos. Aqui no salão rolam umas gorjetas.
Garçom, chega de resenha. Quem vai pagar pelas aspas sou eu. Traga as aspas.
Tá certo, doutor. Mas acho que ninguém vai ler o que senhor está escrevendo.


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