A crise do agro não é igual para todos

A crise do agro não é igual para todos

Grandes produtores e bancos privados saem ilesos. Você? Você, não

Crise climática, depreciação de commodities e juros elevados no mercado privado criaram um cenário paradoxal para o agro brasileiro, que combina neste momento novos recordes de exportação com uma quebradeira já estimada em R$ 40 bilhões, considerando apenas os resultados do primeiro trimestre deste ano. Há mais de 2 mil pedidos de recuperação judicial em andamento e o buraco segue aumentando.

Simplificando o problema, há um endividamento muito alto no setor combinado com um faturamento bem abaixo da expectativa, levando a um calote de dimensões inéditas em relação aos últimos anos e à possibilidade de falências monumentais, que acabarão por transferir para os bancos uma quantidade excepcional de fazendas e equipamentos dados em garantia de empréstimos.

Mas, antes que se compre a versão de que nossos pobres fazendeiros estão indo à bancarrota e precisando urgentemente de uma moratória ou de um plano especial de refinanciamentos bancado por dinheiro público, é preciso entender que, na prática, o prejuízo já está em boa parte socializado e que os maiores empreendedores do agro não vão sofrer tanto quanto as associações de produtores alardeiam por aí.

É verdade que pequenos e médios agricultores que recorreram a empréstimos para não perder o bonde do crescimento dos investimentos liderado pelos maiores produtores estão apertados para pagar as contas e provavelmente perderão terras e maquinário se não tiverem algum alívio. No entanto, mesmo nesses casos, os seguros obrigatórios e o Proagro tendem a garantir que pelo menos uma parte deles garanta recursos suficientes para custear a próxima safra — desde que seja afrouxado o gargalo das perícias e pagamentos, historicamente responsável pelas quebras até mais do que o próprio descompasso financeiro. Trata-se de um ajuste administrativo que pode ser feito se houver boa vontade na burocracia estatal e das seguradoras.

O que interessa mesmo, na avaliação dos “prejuízos” maiores,  é olhar para os grandes produtores de soja e milho, que novamente pressionam pela manutenção de um modelo de capitalismo sem riscos, alardeando a necessidade de socorro depois de terem embolsado lucros polpudos por anos a fio e transferido fortunas para fundos off shore cujo capital não retornará jamais para o Brasil.

No modelo de negócios do grande agro o investimento de capital próprio é uma ilusão. Quando o mercado está favorável, grupos juridicamente constituídos como empresas adquirem terras, hoje basicamente utilizando recursos dos Fundos de Investimento nas Cadeias Agroindustriais, os Fiagros, que, na realidade, juntam o dinheiro de milhares de investidores. Atuando apenas como gestores, expandem as propriedades e usam empréstimos com garantia da terra para financiar sementes, maquinário e custos operacionais. Se têm prejuízo, ele se dilui no mercado financeiro.

Por outro lado, no caso das grandes fazendas de pessoa física, é fato que boa parte das terras representam capital próprio, mas há uma fatia composta de investimentos que foram mais do que amortizados ao longo dos anos de lucro. Ou seja, resultados negativos podem ser teoricamente absorvidos pelo patrimônio acumulado.

Outra parcela está assentada sobre propriedades que foram fortemente ampliadas recentemente à base de financiamentos de longo prazo com juros altos, sobretudo nas fronteiras agrícolas, com grandes apostas feitas num momento em que o mercado imobiliário rural viveu uma sobrevalorização com a qual ninguém parecia se importar, considerando que o faturamento com exportações seria suficiente para pagar os papagaios com sobra.

Enquanto houve de fato ganhos suficientes para manter essa alavancagem em equilíbrio, esses “investidores” transformaram parte do lucro em patrimônio intocável, basicamente representado por trusts com transferência irrevogável de propriedade (em que o investidor deixa de ser dono do dinheiro embora mantenha o direito de usufruto em várias modalidades), fundações de interesse privado (que funcionam como um ONG privada) e empresas de portfólio segregado (cujo capital tem finalidade exclusiva e não pode ser realocado para cobertura de outros negócios). Tudo isso no exterior, claro.

Curiosamente, não é possível que um investidor que tenha optado por esses estratagemas traga o dinheiro de volta mesmo que deseje legitimamente recuperar um negócio que vai mal das pernas aqui no Brasil.

Resumo da ópera: se você adquiriu cotas de Fiagro recentemente, é muito provável que vá sofrer alguma perda, pelo menos nos próximos meses — e talvez de ordem menor do que o que ganhou antes; se, no entanto, não tem esse tipo de investimento, também vai perder algum porque os bancos possivelmente caloteados vão transferir para os juros e taxas que cobram de seus clientes tudo o que perderem — e isso já está claro nos balanços recordistas que vêm divulgando, apesar da crise localizada do agro; já como cidadão, dono natural de parte ínfima dos bancos estatais, aí não há escapatória e sua perda é certa.

Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, desaguadouro natural do prejuízo, por serem os principais financiadores da atividade agrícola a juros já subsidiados, arcarão com um calote, no mínimo, de R$ 40 bilhões de reais, tendendo a alcançar R$ 70 bilhões. Esses dois, por pertencerem a todos, só têm um acionista a ser chamado para a cobertura do prejuízo: você.

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