O buraco no golfe da ESPN

O buraco no golfe da ESPN

Ou, como uma questão de televisão malfeita acaba comprometendo a consolidação de um esporte que só não cresce no país porque boa parte dos praticantes acha que clubes não existem para aglutinar pessoas, mas sim para separá-los do país que contorna seus muros

Sou golfista. Então tenho, como se diz, lugar de fala nesse debate. Sou jornalista, então devo saber alguma coisa sobre comunicação. As transmissões da ESPN Brasil, que neste final de semana acompanham mais uma edição do Masters, são um assunto candente na comunidade golfista e, apesar do que já fizeram no passado para aproximar do esporte quem nunca teve oportunidade de conhecê-lo, evoluíram na direção contrária, assimilando as piores características que o golfe tem no país. Embora esteja entre as dez modalidades esportivas com maior número de praticantes no mundo, com 500 milhões de adeptos, o golfe no Brasil é tratado, pelos que coordenam o esporte, como uma ferramenta de segregação que contribui para separar os ricos – mas nem por isso bem educados ou mesmo honestos – dos 99% da população que têm de se virar com o rateio do que sobra da renda nacional depois que eles põem no bolso seus 40%.

Mas vamos por partes. Primeiro é preciso destacar o papel nessa história do professor de golfe Ricardo Melo, comentarista já histórico da ESPN e indiscutivelmente uma pessoa habilitada, por conhecimento técnico e de vida, a ilustrar as transmissões. A ele se deve boa parte do que emissora fez de bom em termos de golfe. Mas, se entende e se dedica tanto ao esporte, não é obrigado a entender de televisão. E, a cada transmissão, isso fica mais claro. Menos do que burocrática, sua atuação é cada vez mais criticada em grupos de apaixonados por golfe, em muitos casos de forma excessiva e mal endereçada – porque a audiência também não é obrigada a entender de televisão nem é geralmente capaz de apontar por que as falas do comentarista andam causando mais incômodo do que interesse pelo que se passa na tela. Quem entende inglês aperta a tecla SAP e segue adiante, desfrutando das informações bem melhores da ESPN americana, que tem narrador, comentaristas, repórteres de campo e entrevistas com especialistas.

Vamos voltar a esse aspecto mais adiante, mas antes é preciso lembrar que nesta transmissão do Masters apareceu, ao lado da voz de Ricardo, a da golfista Cristina Menichetti, que chegou a disputar mundial amador representando o Brasil – o que seria uma enorme oportunidade para atrair o interesse de mais mulheres para o mundo do golfe brasileiro, cuja população é também em geral misógina e não alcançou ainda nem o primeiro estágio do processo da Evolução. A oportunidade, então, seria boa. Mas, assim como o desempenho de Ricardo Melo é certamente prejudicado pelo desleixo e desinteresse dos gestores da ESPN Brasil, o de Cristina, sem bom exemplo nem orientação, acabou tendo efeito contrário. Produziu comentários estúpidos nas redes sociais, certamente levou alguma mulher que começou a ver a programação por causa dela a rapidamente levantar-se ou apertar a tecla SAP e resultou provavelmente em perda de audiência para o Masters.

Não é culpa de Ricardo Melo nem de Cristina Menichetti, com certeza. É falta de direção de TV, de apoio de produção e, principalmente, de treinamento para relacionamento com audiência. A direção da emissora deixa claro que enxerga a transmissão de golfe como um negócio que tem patrocinador de um lado e caixa da empresa do outro. A plateia não importa e os esforços para dar atratividade e inteligência ao programa, na visão dos coordenadores, não compensam. Boa parte do que a ESPN transmite tem esse sistema: um locutor e um comentarista acompanham a evolução da partida, em imagens obtidas por compra de direitos internacionais, dizem o que lhes dá na telha e, ao final, nos casos de esportes populares, rola uma mesa redonda com o interminável debate sobre os pênaltis, as expulsões e as barbeiragens do apito. Mas isso acaba funcionando nesses casos. Uma razão é que há pessoas envolvidas nos programas que pesquisam sobre atletas, acompanham atentamente os campeonatos, fazem entrevistas e preparam análises detalhadas – enriquecem o conteúdo televisivo. O tênis, por sinal, é tratado com extrema qualidade.

No golfe, está acontecendo o oposto. Na transmissão, Ricardo e Cristina limitam-se na quase totalidade do tempo a dizer para os telespectadores o que eles já sabem, porque está escrito na tela da TV: quem vai dar a tacada, em qual buraco, a que distância, com qual taco. Uma voz gerada por IA provavelmente faria essa transmissão com mais entusiasmo. Quando se arriscam a comentar, a obviedade que parecia impossível ampliar avança ainda mais: dizer que um putt longo é difícil, afirmar que uma tacada da palha não será fácil, acrescentar que uma bola jogada na água deixou o jogador chateado ou analisar que o jogador precisará de dois birdies à frente para compensar do double bogey acrescenta doses elevadas de banalidade. Para piorar, sem que se possa imaginar a razão de tamanha desatenção (possivelmente o smartphone) é frequente que errem a conta da quantidade de tacadas de um atleta, percam o fio da meada na contagem de buracos jogados e placar atualizado e sejam surpreendidos por alterações na classificação que quem está em casa, atento, já sabia que aconteceriam.

A esse já bem fornido pacote, tradicional no golfe na ESPN, a chegada de Cristina veio trazer um complicador. Se, antes, Ricardo Melo corrigia os locutores olimpicamente ignorantes sobre golfe escalados para trabalhar com ele – daí resultando de vez em quando uma informação de fato interessante para o público -, no Masters, a transmissão virou uma disputa de opiniões entre dois golfistas que teimam em contestar o que o outro disse, num confronto inútil de pitacos. “Essa é uma tacada desafiadora”, afirma um quando o telespectador claramente já viu que é desafiadora mesmo. “Para esse jogador não é”, contesta o outro. “Ele faz mágica”, acrescenta, sem informar por que se pode esperar a tal mágica. Nem se o golfe fosse exibido nos botecos de esquina haveria divergências no público tão entediantes e despropositadas. Cite-se, neste ponto, que Melo abriu a transmissão do primeiro dia do Masters sem citar o sobrenome de Cristina nem fazer qualquer referência às qualificações dela para estar ali a seu lado. E nas horas seguintes não mais a tratou pelo nome – um desrespeito com ela e, naturalmente, também com os milhares de telespectadores que passaram pela longa transmissão em algum momento sem ser informados adequadamente.

Ao lado dessas inconveniências que chateiam a audiência, há ainda uma prática antiga (e não exclusiva do golfe, diga-se) de usar as transmissões para sair mandando abraços para fulanos e beltranas (sem nem citar sobrenomes) durante a transmissão. Essa atitude, que poderia parecer apenas um esforço pessimamente dirigido de se aproximar da audiência e conquistar cumplicidade, é, na verdade, o uso de um meio de comunicação para consolidar relacionamentos privados de amizade ou interesse comercial. Na prática, tem um nível risível de provincianismo e amadorismo e resulta em afastamento ainda maior em relação a quem esta assistindo. Se a menção a integrantes da audiência fosse usada para esclarecer dúvidas, explicar aspectos técnicos ou encaminhar iniciantes para determinados lugares de treinamento, teria um grande valor. Mandar abraço para o Zé das Couves é poluição televisiva. Elogiar o patrocinador que pagou cachê para o comentarista propagandear seu empreendimento é ainda mais constrangedor.

Televisão é compromisso com o público anônimo, não com os confrades de clube ou parceiros de negócios. Analisando este aspecto, entende-se por que a qualidade da narração e dos comentários está dentro de um buraco mais profundo, estreito e insondável do que o que existe em cada green. Se as entidades ligadas ao golfe fazem de tudo para mantê-lo secreto, por uma questão de poder, prestígio pessoal e controle de verbas federais e de convênios que chegam ao golfe sem que muita gente seja informada disso, o quadro institucional é consequentemente de antipopularização do esporte. Um empresário interessado em fazer negócios com golfe e trazer investimentos chineses para o esporte queixou-se recentemente nas redes de ser boicotado em seus esforços pelos que enxergam a gestão como ação entre amigos. Deu exemplos de como se controlam federações com eleições de cartas marcadas.

Mas o caso aqui é chegar à relação com a baixa qualidade das transmissões. Já já se chega lá, tendo antes, ainda, de lembrar como os clubes se esforçam para fazer valer os muros que os cercam. Sendo clubes, é natural que tenham regras para aceitar sócios, pratiquem os preços que bem entenderem e restrinjam seus eventos internos da forma que acharem melhor. É do jogo – sem trocadilho. O que não poderiam, embora façam, é isolar-se da comunidade no entorno, tratada como potencial antro de bandidos prontos a invadir a praia do privilégio, nem batalhar por isenções de impostos como se fossem parques públicos. Também vigora em boa parte deles a violação flagrante de direitos trabalhistas, deixando de profissionalizar a atuação dos caddies e transformando-a numa relação praticamente de caridade diretamente com os usuários. A Justiça tem encaminhado decisões contra clubes agenciadores de mão de obra precária.

O clima clubístico transborda desses ambientes e chega à televisão com essa visão de exclusividade, luxo, privilégio e empolgação com o próprio umbigo que alegra meia dúzia e não move um dedo pela ampliação de praticantes. O golfe praticado com entusiasmo, com respeito verdadeiro pelas regras, quase sem trololós com handicap está mais fácil de ser encontrado nos campos públicos, onde jogam antigos caddies e esportistas que gostam de golfe mais do que de bebidas importadas, charutos e acessórios. E que cultivam amizades no campo em lugar de procurar networking. Não por acaso, muitos torneios vêm sendo vencidos por golfistas desse extrato, embora sejam tratados com olhares discriminatórios e comentários inadequados quando as disputas ocorrem nos campos privados. O dinheiro, principalmente no Brasil, não é sinônimo de educação, civilidade e compromisso social. Bem ao contrário, aliás. Com algumas exceções.

O que poderia ser feito para mudar esse panorama e chegar a transmissões de golfe que funcionem a favor do esporte e não como clubinho de golfistas? Muita coisa, diga-se. Melo tem conhecimento de sobra para engajar a audiência. Cristina também. Podem falar de diferenças entre tipos de tacos conforme as condições de umidade, altitude, vento e insolação. Podem tratar dos tipos de grama e das consequência de cada um sobre as tacadas. Podem esclarecer a influência da umidade, da inclinação da grama e de outras condições sobre o putting. Seria excelente se Ricardo esclarecesse por que uma tacada no green que vai cair para um lado ilude o golfista na leitura da caída. É a grama? São os fungos? As minhocas? O lago ao lado? Podem, em acréscimo, contar detalhes históricos de campos e jogadores sem repetir, no pouco que o fazem, as mesmas informações batidas de sempre.

Podem responder perguntas da audiência, indicar professores, comentar tecnicamente o suingue e o movimento de putter de cada competidor, contar como psicólogos já explicaram altos e baixos de um atleta ao longo do percurso de quatro horas – em vez de dizer que fulano perdeu o foco, o que já está óbvio pelo que se vê na tela. Podem pelo menos prestar atenção à transmissão em inglês, para reproduzir as informações mais valiosas que ela veicula. Podem fazer, na verdade um show, dando valor, aliás, ao que eles mesmo sabem.

Sabe-se que Ricardo Melo enfrentou problemas de saúde recentemente e é uma bênção que esteja disponível para compartilhar seu conhecimento na TV, talvez com boa dose de sacrifício. Para esse sacrifício valer ainda mais, dá para melhorar muito o que não está bom e já teve méritos maiores em outros momentos, com a participação dele mesmo. Criticados injustamente além de suas responsabilidades, tanto ele quanto Cristina, que talvez nem esteja sendo remunerada pelo trabalho, deveriam ter, por outro lado, apoio da ESPN para melhorar o nível da produção, para treiná-los como apresentadores de TV e para por na gestão da transmissão um diretor que veja o espetáculo pelo ângulo dos telespectadores e vá adicionando melhorias. O golfe merece isso.

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cacalo kfouri
cacalo kfouri
1 mês atrás

eagle!

Daniel P.
Daniel P.
1 mês atrás

Faltou falar do Centro Paulista de Golfe, que nasceu para incentivar a prática e se transformou num bataclã de luxo.

Walter
Walter
1 mês atrás

Perfeito! Sou um dos que usa o SAP.
Ainda RM tem uma facilidade enorme para criticar, com leviandade e evidente falta de respeito, a qualquer golfista (quando deu uma tacada errada) internacional e com quem, evidentemente, ele nunca irá se encontrar cara a cara. Quando transmite o Latin America Amador, com alguns brasileiros participando (e a familia destes seguramente assistindo) ele jamais critica aquele compatriota ainda que esteja jogando pessimamente. O mesmo quando um brasileiro professional joga no Korn Ferry.
Bairrista e nada objetivo. Neste ponto, um paralelo com Galvão Bueno, mas no golfe.

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