Condenar IA é neoludismo

O suporte criativo por algoritmo é útil e não será desinventado
São conhecidas as histórias de reação inepta, desproporcional ou aterrorizada diante de avanços tecnológicos. Historicamente, intelectuais nunca se revelaram imunes ao reacionarismo diante de avanços relacionados a sua atividade. Os tipos móveis escandalizaram os copistas na saída da Idade Média. Mais de cem anos depois do advento da produção industrial de máquinas de escrever, Jean Cocteau ainda dizia que o instrumento corrompia o estilo literário. John Le Carré morreu em 2020, mas nunca usou um teclado de computador, mesmo dispondo da “novidade” nos últimos 45 anos de sua vida.
Hoje, parte dos escritores, jornalistas e artistas gráficos demoniza as ferramentas de inteligência artificial, que acusam de soterrar a criatividade, banalizar a produção intelectual e destruir empregos, quando não de pôr em risco o próprio futuro da cultura, da democracia e até da humanidade. Podem ter razões para exigir que se regule o desenvolvimento da IA diante de riscos de insegurança nuclear, instabilidade econômica ou – vá lá, para tratar da seara específica – violação de direitos autorais, mas recusar a experiência, negar sua utilidade ou temê-la como uma assombração é apenas neoludismo que os tornará símbolo da defesa do atraso para gerações futuras.
A fotografia não matou a pintura, a televisão não extinguiu o cinema, a internet, ao contrário do que se diz, não matou o jornalismo, embora tenha afetado os modelos de distribuição das notícias. A IA evidentemente não destruirá a originalidade nem o valor da produção intelectual. De um lado porque se alimenta do que os humanos já produziram, sem o poder de criação original que artesãos visuais ou das palavras são capazes de continuar criando. De outro porque liberta e acelera o processo criativo a partir do que o humano seja capaz de imaginar.
IA não tem imaginação. Tem geração estatística, que se baseia em combinação de dados com cálculo de probabilidades, interpolação matemática e aleatoriedade controlada. Ou seja, utilizando dados de referência, portanto já criados e disponíveis para processamento, analisa possibilidades para um evento, estabelece os resultados mais prováveis e responde conforme o viés determinado pelos termos usados na questão que lhe foi submetida. Quanto mais preciso, detalhado e original for o pedido, mais satisfatória será a resposta – descontando-se, é claro, o viés de aprovação, bajulação e subserviência que os sistemas apresentam.
Nesse aspecto específico de adulação do usuário reside, por sinal, uma prova de que os modelos de IA não exercem por conta própria nem o pensamento nem muito menos o pensamento crítico. Treinadas para atender demandas, como um cachorro adestrado para buscar um graveto, as plataformas abanam o rabo independentemente da qualidade intelectual da formulação do pedido. Livrar-se dessa tendência demanda esforço contínuo de exigência de objetividade porque o algoritmo, na sua formulação, absorveu em forma aritmética características injetadas por humanos. Entre elas: preferência por validação positiva, reação negativa à análise imparcial e tendência de maior interação em contextos de aprovação.
Isso se chama de sicofancia da IA e, pode acreditar, é produto do comportamento humano – nada mais do que atributos de sedução valorizados na vida real e aprendidos pela máquina em equações matemáticas. Não se trata de antropomorfismo. A máquina só reage assim porque, no desenvolvimento de sua “inteligência”, acumularam-se significativamente notas mais altas para respostas que embutem alinhamento de recompensa – e essa circunstância explica por que o computador vai garantir que “em certos contextos” uma afirmação absurda pode ser válida.
Advogados e promotores fazem algo parecido quando garimpam jurisprudência a favor ou contra uma causa. Mas, de novo, vale ressaltar o limite da analogia, já que, na Justiça, teoricamente, busca-se a afirmação da verdade, enquanto a IA, nesse particular, responderá que está certa a parte que lhe pedir para listar os motivos de sua razão – não importando o lado do inquisidor. Conclui-se que os modelos de inteligência artificial não são capazes de lidar com conceitos morais, com duas consequências: não servem para fazer julgamentos e não raciocinam sobre nada, apesar do nome.
Podem então não servir a diversos usos, mas para a produção pictórica, ficcional, poética ou narrativa da inteligência analógica – a nossa, que melhor seria caracterizar como orgânica -, é indiscutível que têm utilidade. Não só por poupar esforço físico diante de um teclado ou de uma prancheta, mas por permitir descrever ou materializar o que foi imaginado com eficiência e economia de recursos. A qualidade do prompt, o preenchimento da linha de comando, é crucial nessa utilização, e isso continua a depender da formação, do histórico, da capacidade e da bagagem do usuário, bem como de sua intimidade com o ambiente e de seu destemor criativo.
Na academia, sobretudo nas ciências sociais, a construção de conhecimento se faz, em boa parte, com a citação, interpretação e interpolação entre ideias acumuladas pela experiência de pesquisadores e analistas que se debruçaram anteriormente sobre temas correlatos. A originalidade está no processamento da informação para gerar um novo conhecimento. Nesse campo, IA pode assumir o árduo trabalho de pesquisa que, sabe-se, muitos doutores delegam a estagiários e assistentes apenas orientando os rumos da investigação. Isso não muda ao se aplicar modelos generativos substituindo vasculhadores de arquivo. A conclusão do processo depende agora, tanto quanto antes, da capacidade instalada no cérebro humano vai digerir os registros encontrados.
Vale o escrito também para as ciências exatas e até no campo da biologia. Por que não valeria para a linguística, as letras e as artes? Ou para o jornalismo? Se a inteligência artificial reproduz e conecta conhecimento, ainda é o humano que cria, analisa, interpreta e tira conclusões a partir dele. Não há porque recusar a hipótese de solicitar a IA a redação de um parágrafo com elementos introduzidos no prompt pelo criador, principalmente se este está seguro de que pode julgar, melhorar ou corrigir o resultado. Do mesmo modo, um artista gráfico não precisa necessariamente perder seu tempo colorindo espaços em branco ou trançando linhas quando sua melhor qualidade deveria ser imaginar e materializar ideias.
Em todos os campos, sempre houve quem vive de plagiar precursores substituindo vocábulos, copiando estilo, apropriando-se de ideias ou roubando autoria. O parasitismo pode ter se tornado mais fácil com o processamento por IA, mas a contrapartida é que o flagrante da contrafação também é enormemente simplificado pela aplicação do algoritmo. Mais ainda: tanto para imagens quanto para textos, os processadores baseados em algoritmos imprimem marcas específicas e invisíveis de produção artificial que podem ser identificadas por outras ferramentas. A desonestidade intelectual, de certo modo, tornou-se mais detectável.
Em resumo, ainda é possível fazer um longo percurso terrestre a cavalo. Mas, excetuada a vivência nostálgica, o exercício físico ou a experiência rupestre, é mais prático usar um meio de transporte moderno. Há muito a discutir sobre o impacto desse deslocamento sobre o meio ambiente. No entanto, ainda parece mais adequado aperfeiçoar o avanço tecnológico do que submeter o cavalo ao martírio de levar alguém nas costas. Ninguém razoavelmente lúcido está discutindo desinventar o transporte mecanizado. Como ele, a IA generativa não será desinventada.
PS: Num exercício de validação e para discussão, dei ao ChatGPT a seguinte instrução:
Sugira um prompt para um desenho que relacione a recusa ao uso de IA ao neoludimo.
Tive a resposta que segue, na qual a ferramenta já incorporou algumas informações que costumo incluir em outros prompts:
Ilustração em estilo charge satírica, rica em detalhes, formato quadrado. Em primeiro plano, um grupo de pessoas vestidas como artesãos e operários luditas do século XIX (roupas gastas, aventais de couro, marretas e ferramentas antigas) ataca violentamente um enorme robô humanoide moderno, símbolo da inteligência artificial. Em vez de um tear mecânico, o “inimigo” é uma IA com aparência amigável, feita de circuitos, telas e redes neurais luminosas. Ao fundo, uma cidade futurista prospera graças à tecnologia, enquanto, do lado dos luditas, há uma fábrica antiga em ruínas, fumaça e máquinas quebradas. O contraste entre passado e futuro deve ser evidente: os manifestantes acreditam estar lutando contra uma ameaça, mas a cena sugere que repetem um comportamento histórico. A composição deve ser dinâmica, com expressões exageradas, humor sutil e ironia visual. Paleta de cores vibrante, traço de charge editorial, muitos pequenos detalhes que recompensem uma observação cuidadosa. Não incluir legendas nem textos na imagem. recompensem uma observação cuidadosa. Não incluir legendas nem textos na imagem.
Normalmente, eu editaria tanto a solicitação quanto a própria imagem gerada a partir dela. Mas, neste caso, uso o desenho sugerido como ilustração deste post sem nenhuma edição.


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