Quem deve ser socorrido no meio do naufrágio econômico?

Quem deve ser socorrido no meio do naufrágio econômico?

Recebi ontem o relatório de um banco destacando a expectativa de que os dois candidatos “ressaltem o seu compromisso com o tripé macroeconômico; isto é, regime de câmbio flutuante, metas de inflação e equilíbrio fiscal”.

Ainda ontem, reconhecidos jornalistas de rádio explicavam por que, para ter alguma chance de vitória, Fernando Haddad deveria abandonar aquele discurso sobre “aumentar os impostos para as grandes fortunas e fazer uma reforma bancária”.

Enquanto isso, Jair Bolsonaro e João Dória nos alertam do perigo do comunismo e o risco de converter o Brasil numa Venezuela, caso ganhe o candidato do PT.

Me pergunto por que estaria errado falar em “aumentar os impostos para as grandes fortunas”, num país com uma das maiores desigualdades do mundo?

Talvez, o IBGE seja comunista e por isso divulgou os seguintes dados: “O grupo do 1% mais ricos do país teve rendimento médio de R$ 28 mil ao mês em 2017. Trata-se de um valor 36 vezes maior do que recebeu metade da população.”

Acrescenta esse relatório: “Um brasileiro branco recebeu, em média, R$ 2.814 em 2017. Isso é mais de mil reais a mais que a média entre os negros”, que tiveram rendimento médio de R$ 1.570. Pardos receberam R$ 1.606.

E complementa, o mesmo relatório: “O grau de escolaridade está diretamente ligado ao rendimento médio recebido por um brasileiro. Quem não foi para a escola, recebe em média menos de um salário mínimo” — R$ 842. “O grande salto no rendimento está entre os que concluíram curso universitário, que ganham mais que o dobro, na média, do que outras categorias”.

A reconhecida firma de consultoria Oliver Wyman, que também assessora grandes multinacionais “capitalistas”, publicou este ano o relatório “Renda e produtividade nas últimas duas décadas no Brasil”, no qual informa que mais de 45 milhões de brasileiros vivem com menos de 5 dólares por dia e, deles, 9 milhões com menos de 2 dólares por dia.

Tudo isso no momento de menor inflação anual em décadas e com as menores taxas de juros da história…

O relatório para o Brasil da ONG internacional Oxfam, com base em Oxford, Inglaterra, intitulado “A distância que nos une”, constata que no início de 2017 os seis maiores bilionários do país, juntos, possuíam riqueza equivalente à da metade mais pobre da população.

E agrega, “entre os países para os quais existem dados disponíveis, o Brasil é o que mais concentra renda no 1% mais rico”.

Ou seja: “o 1% mais rico da população recebe, em média, mais de 25% de toda a renda nacional”. “Uma pessoa que recebe um salário mínimo mensal levaria quatro anos trabalhando para ganhar o mesmo que o 1% mais rico ganha em um mês”.

Como entender então estas “sugestões” para o candidato Haddad? E, ainda, como entender o resultado das eleições, então?

Talvez, Joseph Stiglitz (Prêmio Nobel de Economia em 2001) tenha razão. Em algumas democracias, a equação 1 pessoa = 1 voto foi substituída pela fórmula 1 dólar = 1 voto.

Tive oportunidade de viajar muito para Venezuela durante a simultaneidade dos governos Lula e Chávez.

Enquanto Chávez estatizava as empresas, censurava a imprensa, encarcerava aos opositores e falava diariamente durante horas em cadeia nacional de rádio e televisão, no Brasil, e apesar da retórica de esquerda, o “mercado” bebia do elixir mais saboroso e até então inalcançável, aquele que só se bebe no paraíso financeiro: o investment grade.

E um governo de esquerda, tão temido antes quanto agora, tinha o dream team econômico, com as estrelas máximas do mercado financeiro, tais como Henrique Meirelles, Joaquim Levy, Marcos Lisboa, Murilo Portugal, Alexandre Schartsman, Ilan Goldfajn e Afonso Beviláqua, entre outros.

E, ainda, aumentando os programas sociais que tiraram milhões da extrema pobreza.

Na verdade, comparando os discursos de Chávez e do candidato Bolsonaro, não tenho dúvidas de que, em muitos aspectos, o risco de virar uma Venezuela é maior com o ex-capitão.

Por que, nesse país descrito pelo IBGE, seria contraproducente — sob risco de se perder uma eleição – falar em “aumentar os impostos para as grandes fortunas e fazer uma reforma bancária”?

A discussão sobre a desigualdade e taxação das grandes fortunas é uma discussão atual mesmo entre os países mais capitalistas.

Laureados e reconhecidos economistas dos Estados Unidos e Europa, incluindo prêmios Nobel de Economia, reclamam que isso seja feito de maneira urgente para que o crescimento dos países seja compartilhado por todos os cidadãos.

Apontar esse pensamento como tendo base numa ideologia comunista é anacrônico e intencionalmente falso ao mesmo tempo.

Já em 2012, a revista Forbes (cujo slogan é nada menos que “The Capitalist Tool”) publicou o artigo “Os números não mentem: por que reduzir impostos para os mais ricos não funciona mais para fazer crescer a economia?”

Em outubro de 2017, o ideologicamente implacável Fundo Monetário publicou o relatório “Tackling Inequality”, no qual examina o rol das políticas fiscais dos governos (tanto nos países ricos quanto nos pobres) e fala da necessidade da progressividade dos impostos como um dos fatores fundamentais para a redução da desigualdade.

Talvez, nesses 46% que votaram em Bolsonaro esteja contido o 1% mais rico. Mas e o resto?

Posso entender perfeitamente o descontentamento com o PT, que defraudou a enorme confiança da população através de uma corrupção generalizada e institucionalizada. Ou o descontentamento com a política econômica do governo Dilma — embora ela tenha

chegado a escalar Joaquim Levy para tentar reverter os inúmeros desacertos anteriores —, que derivou numa crise sem precedentes.

Simples: “Fomos traídos e jamais perdoaremos”.

Mas é necessário ter boa memória e saber que ex-capitão do Exército não necessariamente entende de barcos naufragando.

E, talvez, quando o alarme soar, o mesmíssimo Paulo Guedes nos informe que as balsas só comportam 1% da população.

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