Um navio (barulhento) da Marinha encalhado na Vila Clementino

O 8º Comando Naval, que opera a 100 quilômetros do mar e a uma distância ainda maior de qualquer rio navegável, é uma fonte de incômodos para os vizinhos. Banda de música, ginastas gritando, helicóptero e rotinas de uma embarcação produzem muito barulho e, ao que se sabe, nenhuma ação esperada de uma força militar
Um pitoresco e inesperado navio está ancorado, ou encalhado, desde 1997 na Vila Clementino, mais precisamente na altura do número 776 da rua Estado de Israel. No local funciona o comando do 8º Distrito Naval, que responde pelas operações da Arma nos Estados de São Paulo e Paraná. Trata-se de uma instalação que chama a atenção por diversas razões: da localização, a 100 quilômetros do porto mais próximo, à solução arquitetônica, inspirada em algo entre uma plataforma de petróleo e um miniporta-aviões, passando sobretudo pelas práticas dos oficiais e marinheiros, que fazem questão de compartilhar com a vizinhança as atividades que desenvolvem a bordo.
Além de fazer a gestão burocrática da Marinha e de promover expedições ao parque industrial paulista para encomendar peças de reposição para a frota naval, os comandantes instalados no local realizam treinamento de pessoal, recebem conscritos, gerenciam um hotel de trânsito, alojam uma tropa e organizam festejos, como formaturas, celebrações de datas especiais e recepções a superiores, além de trocas de comando. Num clube localizado ao lado da estrutura de aço e vidro fazem também festas juninas e outros eventos que levam à interdição de vagas públicas de estacionamento, junto ao meio fio.
Essas festas e a rotina dos marinheiros de terra firme incomodam bastante a vizinhança. Como se sabe, eventos militares têm sempre uma bandinha tocando hinos para saudar as autoridades. Para quem vive no entorno do prédio com ferragem pintada de azul colonial – e não azul oceano, como seria de se esperar -, a questão é a quantidade de vezes que o som estrondoso das tubas e cornetas reverbera pelos edifícios vizinhos. Além de tocar nos festejos, a banda costuma ensaiar muitas vezes antes que eles aconteçam. Não há criança na região, incluindo as de escolas infantis bem próximas, que não tenha na memória os acordes do “Cisne branco”, “Viva a Marinha” e outras pérolas do cancioneiro naval.
Como a base foi estabelecida no fundo de um vale – ironicamente ao lado de um riachinho canalizado, tributário do Córrego do Sapateiro -, não são só os acordes da fanfarra que se espalham colinas acima, mas também a gritaria matinal dos grumetes e praças fazendo ginástica e contando alto, a plenos pulmões, as séries de exercícios. A impressão que dá é que estão aprendendo a contar, numa aula elementar de aritmética, e que o professor vai dar algum prêmio para aquele que gritar mais alto. Essa turma saudável acorda cedo, inicia a ginástica muitas vezes antes das 8h, e parece não se importar muito com a existência de moradores das imediações que trabalham à noite, de hospitais grandes num raio de 300 metros e mesmo de bebês de famílias que vivem nos apartamentos próximos.
Há alguns anos, a situação era ainda pior porque os marinheiros viviam ali seguindo outros costumes dos embarcados, com apitos agudos e prolongados, seguidos de não menos intensas execuções de matraca, marcando a alvorada e a aurora. Durante o dia, um escandaloso alto-falante chamava gente para apresentar-se na ponte de comando ou no salão do rancho. Isso, pelo menos, parou de acontecer depois que construíram um edifício chique na frente do navio. O boato na vizinhança é de que um almirante reformado mudou-se para aquele condomínio e reclamou da barulheira. Antes, nem adiantava ligar para a seção de comunicação da embarcação, com seu atendimento gentil e ineficiente.
Mas, se permanecem a banda, os eventos e a marujada se exercitando para incomodar os habitantes das redondezas, uma situação ainda mais grave se dá quando decidem usar o heliponto equilibrado no alto da construção. Como não existe embarcação que possa chegar a essa instalação estratégica da Marinha nem automóveis que consigam vencer com a celeridade exigida pela atividade militar o trânsito intransponível de São Paulo, é pelo ar que oficiais graduados e autoridades chegam para visitar o local ou mesmo para encurtar deslocamentos até alguma área das proximidades. Não é fácil, mas tente imaginar o estrondo de um helicóptero de 12 lugares, ou ainda maior, pousando num local que fica abaixo da linha dos primeiros andares dos edifícios próximos.
Como se sabe, a última ação relevante na qual se envolveu a Marinha brasileira se deu na Segunda Guerra Mundial, há mais de 80 anos. Isso, claro, excetuando o papel vergonhoso da Arma no golpe militar de 1964 e, depois, no seu envolvimento com as prisões ilegais de caráter político e as torturas praticadas em navios e instalações de terra. Na Amazônia, patrulhando os rios, não é frequente que protagonize apreensões notáveis de drogas e contrabando, embora se saiba que a região é um corredor para esses tipos de crime.
Boa parte do orçamento das Forças Armadas é gasta com pessoal e beneficiários de previdência. No caso específico da Marinha, torra-se um dinheiro lascado na construção de um submarino nuclear que deverá ficar pronto na próxima década, talvez já num momento em que esse tipo de propulsão terá passado por avanços tecnológicos que farão o projeto mergulhar rumo à obsolescência pouco depois de submergir no mar. De modo geral, num país com tantos problemas e poucos conflitos com outras nações, cabe perguntar se a ação estratégica das três Armas não deveria ser revista. É óbvio que a existência e a equipagem das Forças Armadas é um elemento de dissuasão para que os riscos de conflitos continuem baixos. Mas elas bem poderiam contribuir mais com questões prementes e gastar menos. Além disso, o elefante (marinho) instalado na Vila Clementino não tem explicação nenhuma.


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