O ouro eleitoral dos tolos

Dar corda a Milei não ajuda o país nem rende votos para Lula
Em boa parte das discussões inúteis, ninguém sai ganhando e muita gente sai perdendo. É esse o caso da polêmica mais recente e menos empolgante do Cone Sul.
Milei escolheu ser um satélite de Donald Trump operado por controle remoto. Lula é um satélite da própria vaidade cuja órbita não descola da campanha eleitoral. A consequência do confronto entre os dois astros artificiais é uma enorme perda de tempo, um desperdício imenso da paciência alheia e uma grande possibilidade de atraso na equação dos problemas da Argentina e do Brasil que demandam atenção urgente.
Entre esses problemas estão, do lado argentino, o gargalo social, o desemprego, a informalidade, a falta de investimentos privados e a dependência do FMI; e, do lado brasileiro, a instabilidade fiscal, o endividamento público, o engessamento do orçamento, os rombos nas estatais e a estagnação da produtividade. Acrescentando corrupção, insegurança, sonegação, ineficiência de gestão e taxa de juros astronômica, que acossam ambos os países.
Mas, como a população mal entende a maioria desses conceitos e consegue menos ainda relacioná-los ao seu desconforto amplo, geral e irrestrito, é no aspecto da baixa política, da penúria ideológica e da indigência diplomática que prospera o momentoso debate, para não dizer sururu continental, deflagrado pela atuação de Milei na convenção que confirmou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência. O quiproquó faz recordar o histórico debate presidencial de 1989, em que Leonel Brizola chamou Maluf de “filhote da ditadura”, este retrucou que ele era um “desequilibrado” e Guilherme Afif afirmou, na sua curta intervenção, que ambos tinham razão.
Lula já se intrometeu em eleições na própria Argentina, na Colômbia, no Equador, no Paraguai, no Panamá e em Honduras, para citar apenas alguns exemplos, sem nenhum cuidado relacionado às consequências diplomáticas ou comerciais desse comportamento – cuja fatura é enviada para seu governo nos casos de derrota de seus aliados. Diz agora que “ninguém de fora vai meter o bedelho nas eleições brasileiras” como se sua xeretice em quintais alheios tenha a natureza de uma missão de paz da ONU.
É certo que Milei usou a retórica de um neanderthal e o gestual de um orangotango, mas esperar refinamento num momento polarizado como o atual é querer bem mais do que podem oferecer tanto as lideranças da direita extrema quanto muitos dos políticos de outros matizes. Do ponto de vista diplomático, a resposta aos diatribes do presidente argentino ficaria mais ajustada se seguisse o exemplo do então ministro do STF Marco Aurélio Mello em uma sessão na qual respondeu a ataques do colega Gilmar Mendes dizendo que “mau gosto não se discute. Lamenta-se”.
Repercutir a fala e responder ao presidente argentino é o tipo da reação que, não apenas faz espuma marrom diante dos verdadeiros e graves problemas que o governo tem para administrar como, pelo ângulo eleitoral, acrescenta isopor na balança. Ou seja, ocupa-se muito espaço para um ganho que não pesa absolutamente nada. Num cenário em que importa de fato convencer eleitores de centro a escolher um dos lados em outubro, Lula gasta espaço e saliva reagindo a Milei, do mesmo modo que Flávio, por sinal, fez bobagem posando de paquita do Xuxo da Casa Rosada. Os eleitorados de voto consolidado não vão abandonar seu respectivos barcos e os indecisos esperam demonstrações de confiabilidade e comprometimento que nada têm que ver com os sacolejos e a milonga javierista.
Lá na Argentina, a excursão eleitoral do presidente provocou reações que vão de políticos com “vergonha alheia” a ação judicial por malversação de recursos públicos em compromissos privados com riscos diplomáticos e comerciais. Milei que se explique aos cidadãos de seu país.
Na essência de toda essa distração política consoante com tempos de cancelamentos, julgamentos sumários em redes sociais e busca de audiência com retórica vazia, o campeão leva o grande prêmio dos tolos: as batatas.


Related Posts